segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Pele de foca, pele de alma - Capítulo 9 - Mulheres que correm com os lobos


A volta ao lar: O retorno ao próprio Self




"A história nos fala de onde realmente viemos, do que somos feitas e de como todas nós precisamos, com regularidade, usar nossos instintos e descobrir o caminho de volta ao lar."

No dia 06 desse mês tivemos o encontro de mulheres e discutimos sobre o capítulo 9 do livro Mulheres que correm com os lobos. Abaixo uma foto sobre o encontro. Está com quatro meses que iniciei a leitura desse livro.


A sensação que tenho é que a leitura, apesar de parecer aleatória, entra em sintonia com o que tenho vivenciado. O Universo é mágico!!!

Esse foi o capítulo mais rabiscado de todos os tempos!!! Hahaha

Uma coisa importante que temos que sempre fazer ao ler os textos de Clarissa é: tente ser todos os personagens da história: a mulher foca, Ooruk (o ser medial), e também seja o caçador solitário...

Como é ser cada um deles?

Resuminho...

A história fala de uma mulher foca que estava junto de suas irmãs/amigas focas, mas ela por um momento de descuido fica longe da sua pele de foca, aí o caçador solitário vem e pega a pele, e diz que só devolve a pele à mulher-foca se ela passar 7 verões com ele. Ela então aceita, fica esse período com ele e juntos têm um filho. Mas aí a mulher-foca começa a secar, fica tipo triste, com os olhos sem brilho e percebe que "está na hora de voltar pro lar". E esse é um dos principais ensinamentos do conto, que precisamos de tempos em tempos retornar para o nosso lar espiritual.
Para ler o conto na íntegra, clique aqui



Destrinchando o capítulo:

Pontos principais: 

A perda do sentido de alma como iniciação:

"Como a mulher-foca da história, e como a alma de mulheres jovens e/ou inexperientes, ela não percebe as intenções dos outros e o perigo em potencial. E é sempre aí que a pele da foca é roubada."

Como é esse roubo da pele? Pele é como se fosse uma proteção. A dra Clarisse diz que algumas pessoas dizem que é como se fosse um "roubo da sua 'grande oportunidade' da vida". Outros descrevem o fato como "uma distração, uma ruptura, uma interferência ou interrupção de algo que lhes é vital: sua arte, seu amor, seu sonho, sua esperança, sua crença na bondade, seu desenvolvimento, sua honra, seus esforços."

O roubo cai nas mulheres em virtude da ingenuidade, da percepção falha quanto às motivações dos outros.

Ela diz que as pessoas que permitem ser roubadas não são más, nem erradas, nem tolas, elas são inexperientes! Estão num "cochilo psíquico".

Nesse momento, a mulher pode decidir RESGATAR O TESOURO, reabastecendo o self.

Quatro constructos vitais da psique:

1) Fortalece extremamente nossa determinação de lutar pelo resgate do inconsciente;
2) Esclarece, com o passar do tempo, o que é mais importante para nós;
3) Ele nos preenche com a necessidade de ter um plano para nos libertarmos, em termos psiquicos ou outros, e de pôr em cena nossos conhecimentos recém-adquirido.
4) Desenvolve nossa natureza medial, aquela parte selvagem e sagaz da psique que também pode permear o mundo da alma e o mundo dos humanos.



"Uma das questões mais cruciais e de maior potencial destrutivo enfrentadas pelas mulheres consiste no fato de elas começarem vários processos de iniciação psicológica sem iniciadores que tenham eles próprios completado o processo. Elas não conhecem pessoas maduras que saibam como prosseguir. Quando os próprios iniciadores são pessoas cuja iniciação está incompleta, eles omitem aspectos importantes do processo sem perceber, e às vezes causam grandes males ao iniciando por trabalharem com uma ideia fragmentada da iniciação, uma idéia que freqüentemente está contaminada de uma forma ou de outra."

A perda da pele:

"Toda mulher afastada do lar da sua alma acaba se cansando. É então que ela procura sua pele de foca para revitalizar seu sentido de identidade e de alma, para restaurar seu conhecimento penetrante e
oceânico."

E quando é que perdemos a pele da alma?



"Perdemos a pele da alma quando ficamos muito envolvidas com o ego, quando nos tornamos por demais exigentes, perfeccionistas, quando nos martirizamos desnecessariamente, somos dominadas por uma ambição cega ou quando nos sentimos insatisfeitas — com o próprio self, com a família, a comunidade, a cultura, o mundo — e não fazemos nem dizemos nada a respeito disso; também quando fingimos ser uma fonte ilimitada para os outros quando não fazemos o possível para nos ajudar. Ora, existem tantos modos para se perder a pele da alma quantas são as mulheres do mundo."

"O único meio de permanecer agarrada a essa essencial pele da alma consiste em manter uma conscientização delicadamente imaculada a respeito dos seus valores e utilidades."

O homem solitário:

O homem representa o ego da psique da mulher. Clarissa afirma que no início da vida é o ego que que frequentemente manda. "Ele relega a alma aos trabalhos mesquinhos da cozinha."

"No entanto, em algum ponto, às vezes quando estamos com vinte anos, às vezes com trinta, com maior freqüência aos quarenta anos, muito embora algumas mulheres só estejam realmente prontas depois dos cinqüenta, dos sessenta ou mesmo dos setenta ou oitenta, começamos, afinal, a permitir que a alma assuma o comando. O poder passa, então, dos detalhes e minúcias práticas para o envolvimento da alma."

A criança espiritual:

A criança é o resultado da união entre o ego e a alma. A criança (Ooruk) tem a capacidade de ouvir o chamado.


É um ser medial.

O definhamento e a invalidez:

"A maioria das depressões, tédios e confusões errantes da mulher é causada por uma severa restrição da vida da alma, na qual a inovação, o impulso e a criatividade são proibidos ou limitados."

Nessa parte Clarissa coloca uma história que se quiser ler na íntegra, coloco aqui: O terno

Clarissa fala que a atitude o segundo velho é uma coisa natural, a mulher precisa manter uma postura impecável, mesmo que para isso precise ficar aleijada.

Ouvindo o chamado da Mais Velha:

Na história quem ouve o chamado é a "pequena criança espiritual".

"A inquietação da mulher durante esse período vem muitas vezes acompanhada de irritabilidade e de uma sensação de que tudo está perto demais para ser agradável, ou longe demais para nos proporcionar paz. Ela se sente de alguma forma pouco e muito "perdida", pois ficou muito tempo longe de casa."

A demora excessiva:

"Quando a mulher passa tempo demais longe de casa, sua capacidade de perceber como está se sentindo a respeito de si mesma e de todas as outras coisas começa a secar e a rachar. Ela está no "estado de lemingue"."

"Quando a mulher fica muito tempo longe do seu lar, ela se torna cada vez menos capaz de avançar na vida. Em vez de optar por arreios de sua própria escolha, ela como que fica pendurada na vontade dos outros."

"A "ninhada morta" é composta de ideias, deveres, exigências que não funcionam, que não têm vida e que não geram vida. Uma mulher assim torna-se pálida, apesar de briguenta; passa a ser cada vez mais inflexível, embora dispersa. Seu pavio vai ficando cada vez mais curto."

"Uma mulher de iniciação incompleta nesse estado de privação acredita erroneamente obter maior vantagem espiritual ficando do que indo embora."

A mulher precisa entender essa necessidade por si mesma. E essa volta da mulher ao lar espiritual permite aos outros que eles também busquem isso. Elas precisam voltar ao lar espiritual mesmo que isso irrite aos outros, pois ela volta mais forte.

A separação, o mergulho:

No momento de volta ao lar, volte. Quando está na hora, está na hora.

"Todas nós temos nossos métodos preferidos para nos convencer a não tirar o tempo necessário para a volta ao lar. No entanto, quando resgatamos nossos ciclos instintivos e selváticos, ficamos sob a obrigação psíquica de organizar nossa vida para que possamos vivê-la cada vez mais em harmonia."

"Por quanto tempo a pessoa fica no lar espiritual? O máximo de tempo possível, ou até que você seja novamente dona de si mesma. Com que freqüência é necessária essa volta? Com uma freqüência muito maior se você for uma pessoa "sensível" e muito ativa no mundo objetivo. Algo menos se você for um pouco insensível e não se "expuser" tanto."

A mulher medial: A que respira debaixo d'água:

A mulher medial se posiciona entre o mundo da realidade consensual e o do inconsciente místico, fazendo mediação entre eles. Ela é o transmissor e o receptor entre dois ou mais valores ou idéias.

Um dos efeitos da regularidade na volta ao lar está no fato de a mulher medial da psique sair fortalecida toda vez que a mulher vai e volta.

A volta à superfície:

Devemos voltar à nossa vida diária impregnadas por um novo ânimo!

A prática da solidão voluntária:

Serve para curar a fadiga e evitar o cansaço...

Como podemos invocar a alma? "Há muitas formas: pela meditação, pelos ritmos da corrida, do toque de tambor, do canto, do ato de escrever, da pintura, da composição musical, de visões de grande beleza, da oração, da contemplação, dos ritos e rituais, de ficar parada e até mesmo de idéias e disposições de ânimo arrebatadoras."

"Há muitos aspectos da nossa vida que devemos avaliar com constância: o ambiente, o trabalho, a vida criativa, a família, o parceiro, os filhos, mãe/pai, a sexualidade, a vida espiritual e assim por diante."

A ecologia inata às mulheres:

"Mesmo que tenhamos trabalhado, feito sexo, descansado ou brincado fora dos ciclos, isso não mata a Mulher Selvagem; só nos deixa exaustas."

"É com o amor e o cuidado com nossas fases naturais que protegemos nossa vida para que ela não seja arrastada pelo ritmo de outra pessoa, pela dança de outra pessoa, pela fome de outra pessoa."

"Culturas excessivamente civilizadas e repressoras tentam impedir as mulheres de voltar para
casa."

Finalizo com: Nas palavras de Jung, "seria muito melhor simplesmente admitir nossa pobreza espiritual. ...Quando o espírito fica pesado, ele se transforma em água. ...Portanto, o caminho da alma... conduz à água"

O que eu entendi das palavras de Jung? Nada... Mas o capítulo 10 (próximo em ordem) é "Águas claras" pode ser que dra Clarissa me explique!!! :)

Boa leitura!!!

O terno - História complementar do capítulo 9



Um homem veio a um szabó, alfaiate, para experimentar terno. Parado diante do espelho, ele percebeu que o colete estava um pouco irregular na parte inferior.
— Ora — disse o alfaiate. — Não se preocupe com isso. Basta você puxar a ponta mais curta para baixo com a mão esquerda, que ninguém jamais vai perceber nada.

Enquanto o cliente fazia exatamente isso, ele notou que a lapela do paletó estava com uma ponta enrolada em vez de estar rente.
— Isso? — perguntou o alfaiate. — Isso não é nada. É só você virar a cabeça um pouquinho e segurar a lapela no lugar com o queixo.

O freguês obedeceu e, quando o fez, observou que a costura de entrepernas estava meio curta e que o gancho lhe parecia um pouco apertado demais.
— Ora, nem pense nisso. Puxe o gancho para baixo com a mão direita, e tudo vai ficar perfeito. — O freguês concordou e comprou o terno.

No dia seguinte, o homem estreou o terno com todas as alterações de queixo e mãos. Enquanto ia mancando pelo parque com o queixo segurando a lapela no lugar, uma das mãe puxando o colete, e a outra mão agarrada ao gancho, dois velhos pararam de jogar damas para vê-lo passando com dificuldade.
— M'Isten, meu Deus! — disse o primeiro velho. — Veja aquele pobre aleijado.
O segundo homem refletiu por um instante antes de sussurrar.
— Igen, é, ele é bem aleijado mesmo, mas sabe o que eu queria saber... onde será que ele comprou um terno tão elegante?

Do livro Mulheres que correm com os lobos

Conto Pele de foca, pele da alma

Pele de foca, pele da alma

Houve um tempo, que passou para sempre e que irá logo estar de volta, em que um dia corre atrás do outro de céus brancos, neve branca... e todos os minúsculos pontinhos escuros ao longe são pessoas, cães, ou ursos.

Nesse lugar, nada viceja gratuitamente. Os ventos são fortes, e as pessoas se acostumaram a trazer consigo seus parkas, mamleks e botas, já de propósito. Nesse lugar, as palavras se congelam ao ar livre, e frases inteiras precisam ser arrancadas dos lábios de quem fala e descongeladas junto ao fogo para que as pessoas possam ver o que foi dito. Nesse lugar, as pessoas vivem na basta cabeleira da velha Annuluk, a avó, a velha feiticeira que é a própria Terra. E foi nessa terra que vivia um homem...
um homem tão solitário que, com o passar dos anos, as lágrimas haviam aberto fundos abismos no seu rosto.

Ele tentava sorrir e ser feliz. Ele caçava. Colocava armadilhas e dormia bem. No entanto, sentia falta de companhia. Às vezes, lá nos bancos de areia, no seu caiaque, quando uma foca se aproximava, ele se lembrava de antigas histórias sobre como as focas haviam um dia sido seres humanos e como o único remanescente daqueles tempos estava nos seus olhos, que eram capazes de retratar expressões, aquelas expressões sábias, selvagens e amorosas. Às vezes ele sentia nessas ocasiões uma solidão tão profunda que as lágrimas escorriam pelas fendas já tão gastas no seu rosto.

Uma noite ele caçou até depois de escurecer, mas sem conseguir nada. Quando a lua subiu no céu e as banquisas de gelo começaram a reluzir, ele chegou a uma enorme rocha malhada no mar e seu olhar aguçado pareceu distinguir movimentos extremamente graciosos sobre a velha rocha.

Ele remou lentamente e com os remos bem fundos para se aproximar, e lá no alto da rocha imponente dançava um pequeno grupo de mulheres, nuas como no primeiro dia em que se deitaram sobre o ventre da mãe. Ora, ele era um homem solitário, sem nenhum amigo humano a não ser na lembrança — e ele ficou ali olhando. As mulheres pareciam seres feitos de leite da lua, e sua pele cintilava com
gotículas prateadas como as do salmão na primavera. Seus pés e mãos eram longos e graciosos.



Elas eram tão lindas que o homem ficou sentado, atordoado, no barco, e a água nele batia, levando-o cada vez mais para junto da rocha. Ele ouvia o riso magnífico das mulheres... pelo menos elas pareciam rir, ou seria a água que ria às margens da rocha? O homem estava confuso, por se sentir tão deslumbrado. Entretanto, dispersou-se a solidão que lhe pesava no peito como couro molhado e, quase sem pensar, como se fosse seu destino, ele saltou para a rocha e roubou uma das peles de
foca ali jogadas. Ele se escondeu por trás de uma saliência rochosa e ocultou a pele de foca dentro do seu qutnquq, parka.

Logo, uma das mulheres gritou numa voz que era a mais linda que ele já ouvira... como as baleias chamando na madrugada... ou não, talvez fosse mais parecida com os lobinhos recém-nascidos caindo aos tombos na primavera... ou então, não, era algo melhor do que isso, mas não fazia diferença porque... o que as mulheres estavam fazendo agora?

Ora, elas estavam vestindo suas peles de foca, e uma a uma as mulheres-focas deslizavam para o mar, gritando e ganindo de felicidade. Com exceção de uma. A mais alta delas procurava por toda a parte a sua pele de foca, mas não a encontrava em lugar nenhum. O homem sentiu-se estimulado — pelo quê, ele não sabia. Ele saiu de trás da rocha, dirigindo um apelo a ela.
— Mulher... case-se... comigo. Sou um... homem... sozinho.
— Ah — respondeu ela. — Eu não posso me casar, porque sou de outra natureza, pertenço aos que vivem temeqvanek, lá embaixo.
— Case-se... comigo — insistiu o homem. — Em sete verões, prometo lhe devolver sua pele de foca, e você poderá ficar ou ir embora, como preferir.



A jovem mulher-foca ficou olhando muito tempo o rosto do homem com olhos que, se não fossem suas origens verdadeiras, pareciam humanos.
— Irei com você — disse ela, relutante. — Dentro de sete verões, tomaremos a decisão.

E assim, com o tempo, tiveram um filho a quem deram o nome de Ooruk. A criança era ágil e gorda. No inverno, a mãe contava a Ooruk histórias de seres que viviam no fundo do mar enquanto o pai esculpia um urso em pedra branca com uma longa faca. Quando a mãe levava o pequeno Ooruk para a cama, ela lhe mostrava pelo buraco da ventilação as nuvens e todas as suas formas. Só que, em vez de falar das formas do corvo, do urso e do lobo, ela contava histórias da vaca-marinha, da baleia,
da foca e do salmão... pois eram essas as criaturas que ela conhecia.

No entanto, à medida que o tempo foi passando, sua pele começou a ressecar. A princípio, ela escamou e depois passou a rachar. A pele das suas pálpebras começou a descascar. O cabelo da sua cabeça, a cair no chão. Ela se tornou naluaq, do branco mais pálido. Suas formas arredondadas começaram a definhar. Ela procurava esconder seu caminhar claudicante. A cada dia seus olhos, sem que ela quisesse, iam ficando mais opacos. Ela passou a estender a mão para tatear porque sua vista estava escurecida.

E as coisas iam dessa forma até uma noite em que o menino Ooruk despertou ouvindo gritos e se sentou ereto nas cobertas de pele. Ele ouviu um rugido de urso, que era seu pai repreendendo a mãe. Ouviu, também, um grito como o da prata que ressoa com uma pedra, que era sua mãe.

— Você escondeu minha pele de foca há sete longos anos, e agora está chegando o oitavo inverno. Quero que me seja devolvido aquilo de que sou feita — gritou a mulher-foca.
— E você, mulher — vociferou o marido. — Você me deixará se eu lhe der a pele.
— Não sei o que eu faria. Só sei que preciso daquilo a que pertenço.
— E você me deixaria sem mulher, e a seu filho, sem mãe. Você é má.

Com essas palavras, o marido afastou com violência a pele da porta e desapareceu noite adentro.

O menino adorava a mãe. Ele tinha medo de perdê-la e, por isso, chorou até dormir... só para ser acordado pelo vento. Um vento estranho... que parecia chamá-lo.
— Oooruk, Ooorukkkk.
Ele pulou da cama, tão apressado que vestiu o parka de cabeça para baixo e só puxou os mukluks até a metade. Ao ouvir seu nome chamado insistentemente, ele saiu correndo na noite estrelada.
— Ooooooorukkk.

O menino correu até o penhasco de onde se via a água e lá, bem longe no mar encapelado, estava uma foca prateada, imensa e peluda... Sua cabeça era enorme.

Seus bigodes lhe caíam até o peito. Seus olhos eram de um amarelo forte.
— Ooooooorukkk.

O menino foi descendo o penhasco de qualquer jeito e bem junto à base tropeçou numa pedra, não, numa trouxa, que rolou de uma fenda na rocha. O cabelo do menino fustigava seu rosto como milhares de açoites de gelo.
— Ooooooorukkk.



O menino abriu a trouxa e a sacudiu: era a pele de foca da sua mãe. Ah, ele sentia seu perfume na pele inteira. E, enquanto mergulhava o rosto na pele de foca e respirava seu cheiro, a alma da mãe penetrava nele como um súbito vento de , verão
— Ah — exclamou ele com alegria e dor, e levou novamente a pele ao rosto.

Mais uma vez, a alma da mãe passou pela dele. — Ah!!! — gritou ele de novo, porque estava sendo impregnado pelo amor infindo da mãe.

E a velha foca prateada ao longe mergulhou lentamente para debaixo d'água.

O menino escalou o penhasco, voltou correndo para casa com a pele de foca voando atrás dele e se jogou para dentro de casa. Sua mãe contemplou o menino e a pele e fechou os olhos, cheia de gratidão pelo fato de os dois estarem em segurança.

Ela começou a vestir sua pele de foca.
— Ah, mãe, não! — gritou o menino. Ela apanhou o menino, ajeitou-o debaixo do braço e saiu correndo aos trambolhões na direção do mar revolto.
— Ai, mamãe, não me abandone! — implorava Ooruk. E logo dava para se ver que ela queria ficar com o filho, queria mesmo, mas alguma coisa a chamava, algo que era mais velho do que ele, mais velho do que ela, mais antigo que o próprio tempo.
— Ah, mamãe, não, não, não — choramingou a criança. Ela se voltou para ele com uma expressão de profundo amor nos olhos. Segurou o rosto do menino nas mãos e soprou para dentro dos pulmões do menino seu doce alento, uma vez, duas, três vezes. Depois, com o menino debaixo do braço como uma carga preciosa, ela mergulhou bem fundo no mar e cada vez mais fundo. A mulher-foca e seu filho não tinham dificuldade para respirar debaixo d'água.


Eles nadaram muito para o fundo até que entraram no abrigo subaquático das focas, onde todos os tipos de criaturas estavam jantando e cantando, dançando e conversando, e a enorme foca prateada que havia chamado Ooruk de dentro do mar da noite abraçou o menino e o chamou de neto.
— Como você está se saindo lá em cima, minha filha? — perguntou a grande foca prateada.

A mulher-foca afastou o olhar e respondeu.
— Magoei um ser humano... um homem que deu tudo para que eu ficasse com ele. Mas não posso voltar para ele, porque, se o fizer, estarei me transformando em prisioneira.
— E o menino? — perguntou a velha foca. — Meu neto? — Ele estava tão orgulhoso que sua voz tremia.
— Ele tem de voltar, meu pai. Ele não pode ficar aqui. Ainda não chegou o seu tempo de ficar conosco. — Ela chorou. E juntos eles choraram.



E assim passaram-se alguns dias e noites, exatamente sete, período durante o qual voltou o brilho aos cabelos e aos olhos da mulher-foca. Ela adquiriu uma bela cor escura, sua visão se recuperou, seu corpo voltou às formas arredondadas, e ela nadava com agilidade. Chegou, porém, a hora de devolver o menino à terra. Nessa noite, o avô-foca e a bela mãe do menino nadaram com a criança entre eles. Vieram subindo, subindo de volta ao mundo da superfície. Ali eles depositaram Ooruk
delicadamente no litoral pedregoso ao luar.

— Estou sempre com você — afiançou-lhe sua mãe. — Basta que você toque algum objeto que eu toquei, minhas varinhas de fogo, minha ulu, faca, minhas esculturas de pedra de focas e lontras, e eu soprarei nos seus pulmões um fôlego especial para que você cante suas canções.

A velha foca prateada e sua filha beijaram o menino muitas vezes. Afinal, elas se afastaram, saíram nadando mar adentro e, com um último olhar para o menino, desapareceram debaixo d'água. E Ooruk, como ainda não era a sua hora, ficou.

Com o passar do tempo, ele cresceu e se tornou um famoso tocador de tambor, cantor e inventor de histórias. Dizia-se que tudo isso decorria do fato de ele, quando menino, ter sobrevivido a ser carregado para o mar pelos enormes espíritos das focas.

Agora, nas névoas cinzentas das manhãs, ele às vezes ainda pode ser visto, com seu caiaque atracado, ajoelhado numa certa rocha no mar, parecendo falar com uma certa foca fêmea que freqüentemente se aproxima da orla. Embora muitos tenham tentado caçá-la, sempre fracassaram. Ela é conhecida como Tanqigcaq, a brilhante, a sagrada, e dizem que, apesar de ser foca, seus olhos são capazes de retratar expressões, aquelas expressões sábias, selvagens e amorosas.

Do Livro Mulheres que Correm com os Lobos

A mulher esqueleto - Capítulo 5 - Mulheres que correm com os lobos

A caçada: Quando o coração é um caçador solitário

A Mulher-esqueleto: encarando a natureza de vida-mortevida
do amor

Para ler o conto clique aqui

Diferentemente dos seres humanos, os lobos não consideram que os altos e baixos da vida, quer de energia, de poder, de alimento, quer de oportunidade, sejam espantosos ou punitivos.

A natureza instintiva tem a capacidade miraculosa de sobreviver a cada dádiva positiva, a cada conseqüência negativa, e ainda manter o relacionamento com o self e com o outro.

As histórias das regiões próximas ao pólo descrevem o amor como a união entre dois seres cuja força
reunida permite a um deles, ou a ambos, a entrada em comunicação com o mundo da alma e a participação no destino como uma dança com a vida e a morte.

Existem, porém, exigências para esse tipo de união. A fim de criar esse amor duradouro, convida-se mais um parceiro para a união. Esse terceiro é a Mulher esqueleto. Ela é também chamada de A Morte e, nesse sentido, ela é a natureza da vida-morte-vida num dos seus muitos disfarces. Nessa sua apresentação, A Morte não é um mal. mas uma divindade.

O conto é uma antiga história do povo inuit, e nele estão os estágios psíquicos para o domínio desse abraço (com a mulher esqueleto).

Para amar é preciso não só ser forte, mas também sábio. A força vem do espírito. A sabedoria, da Mulher esqueleto.

Parei de escrever esse post aqui no dia 18 de setembro e retorno somente hoje, dia 23 de outubro... Parei porque estava muito focada nos estudos, nesse intervalo, fui a um encontro de mulheres e li o capítulo 9 (Pele de foca), é incrível como os capítulos estão fluindo bem com os acontecimentos dos meus dias e do meu crescimento pessoal...

Bom, o que é esse capítulo? Esse capítulo fala que o amor é quando encaramos a Mulher Esqueleto, é quando vemos que nos relacionamentos existe sempre algo que você não deseja, não quer, sente repulsa... Achei tão forte o capítulo e chorei quando li, porque percebi que eu e meu companheiro conhecemos o pior de cada um de nós e mesmo assim, amamos um ao outro e mesmo assim admiramos.

Finalizo o post com esse trecho do livro:

"Parece tão repulsivo, mas esse é o momento perfeito em que se apresenta uma verdadeira oportunidade de demonstrar coragem e de conhecer o amor. 

Amar significa ficar com. 

Significa emergir de um mundo de fantasia para um mundo em que o amor duradouro é possível, cara a cara, ossos a ossos, um amor de devoção.

Amar significa ficar quando cada célula nos manda fugir."



segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Conto A mulher esqueleto

A mulher esqueleto



Ela havia feito alguma coisa que seu pai não aprovava, embora ninguém mais se lembrasse do que havia sido. Seu pai, no entanto, a havia arrastado até os penhascos, atirando-a ao mar. Lá, os peixes devoraram sua carne e arrancaram seus olhos. Enquanto jazia no fundo do mar, seu esqueleto rolou muitas vezes com as correntes.

Um dia um pescador veio pescar. Bem, na verdade, em outros tempos muitos costumavam vir a essa baía pescar. Esse pescador, porém, estava afastado da sua colônia e não sabia que os pescadores da região não trabalhavam ali sob a alegação de que a enseada era mal-assombrada.


O anzol do pescador foi descendo pela água abaixo e se prendeu — logo em quê! — nos ossos das costelas da Mulher-esqueleto. O pescador pensou: "Oba, agora peguei um grande de verdade! Agora peguei um mesmo!" Na sua imaginação, ele já via quantas pessoas esse peixe enorme iria alimentar, quanto tempo sua carne duraria, quanto tempo ele se veria livre da obrigação de pescar. E enquanto ele lutava com esse enorme peso na ponta do anzol, o mar se encapelou com uma espuma agitada, e o caiaque empinava e sacudia porque aquela que estava lá embaixo lutava para se soltar. E quanto mais ela lutava, tanto mais ela se enredava na linha. Não importa o que fizesse, ela estava sendo inexoravelmente arrastada para a superfície, puxada pelos ossos das próprias costelas.

O pescador havia se voltado para recolher a rede e, por isso, não viu a cabeça calva surgir acima das ondas; não viu os pequenos corais que brilhavam nas órbitas do crânio; não viu os crustáceos nos velhos dentes de marfim. Quando ele se voltou com a rede nas mãos, o esqueleto inteiro, no estado em que estava, já havia chegado à superfície e caía suspenso da extremidade do caiaque pelos dentes incisivos.

— Agh! — gritou o homem, e seu coração afundou até os joelhos, seus olhos se esconderam apavorados no fundo da cabeça e suas orelhas arderam num vermelho forte. — Agh! — berrou ele, soltando-a da proa com o remo e começando a remar loucamente na direção da terra. Sem perceber que ela estava emaranhada na sua linha, ele ficou ainda mais assustado pois ela parecia estar em pé, a persegui-lo o tempo todo até a praia. Não importava de que jeito ele desviasse o caiaque, ela continuava ali atrás. Sua respiração formava nuvens de vapor sobre a água, e seus braços se agitavam como se quisessem agarrá-lo para levá-lo para as profundezas.

— Aaagggggghhhh! — uivava ele, quando o caiaque encalhou na praia. De um salto ele estava fora da embarcação e saía correndo agarrado à vara de pescar. E o cadáver branco da Mulher-esqueleto, ainda preso à linha de pescar, vinha aos solavancos bem atrás dele. Ele correu pelas pedras, e ela o acompanhou. Ele atravessou a tundra gelada, e ela não se distanciou. Ele passou por cima da carne que havia deixado a secar, rachando-a em pedaços com as passadas dos seus mukluks.


O tempo todo ela continuou atrás dele, na verdade até pegou um pedaço do peixe congelado enquanto era arrastada. E logo começou a comer, porque há muito, muito tempo não se saciava. Finalmente, o homem chegou ao seu iglu, enfiou-se direto no túnel e, de quatro, engatinhou de qualquer jeito para dentro. Ofegante e soluçante, ele ficou ali deitado no escuro, com o coração parecendo um tambor, um tambor enorme. Afinal, estava seguro, ah, tão seguro, é, seguro, graças aos deuses, Raven, é, graças a Raven, é, e também à todo-generosa Sedna, em segurança, afinal.

Imaginem quando ele acendeu sua lamparina de óleo de baleia, ali estava ela — aquilo — jogada num monte no chão de neve, com um calcanhar sobre um ombro, um joelho preso nas costelas, um pé por cima do cotovelo. Mais tarde ele não saberia dizer o que realmente aconteceu. Talvez a luz tivesse suavizado suas feições; talvez fosse o fato de ele ser um homem solitário. Mas sua respiração ganhou um quê de delicadeza, bem devagar ele estendeu as mãos encardidas e, falando baixinho como a mãe fala com o filho, começou a soltá-la da linha de pescar.
— Oh, na, na, na. — Ele primeiro soltou os dedos dos pés, depois os tornozelos.
— Oh, na, na, na. — Trabalhou sem parar noite adentro, até cobri-la de peles para aquecê-la, já que os ossos da Mulher-esqueleto eram iguaizinhos aos de um ser humano.

Ele procurou sua pederneira na bainha de couro e usou um pouco do próprio cabelo para acender mais um foguinho. Ficou olhando para ela de vez em quando enquanto passava óleo na preciosa madeira da sua vara de pescar e enrolava novamente sua linha de seda. E ela, no meio das peles, não pronunciava palavra — não tinha coragem — para que o caçador não a levasse lá para fora e a jogasse lá embaixo nas pedras, quebrando totalmente seus ossos.

O homem começou a sentir sono, enfiou-se nas peles de dormir e logo estava sonhando. Às vezes, quando os seres humanos dormem, acontece de uma lágrima escapar do olho de quem sonha. Nunca sabemos que tipo de sonho provoca isso, mas sabemos que ou é um sonho de tristeza ou de anseio. E foi isso o que aconteceu com o homem.

A Mulher-esqueleto viu o brilho da lágrima à luz do fogo, e de repente ela sentiu uma sede daquelas. Ela se aproximou do homem que dormia, rangendo e retinindo, e pôs a boca junto à lágrima. Aquela única lágrima foi como um rio, que ela bebeu, bebeu e bebeu até saciar sua sede de tantos anos.
Enquanto estava deitada ao seu lado, ela estendeu a mão para dentro do homem que dormia e retirou seu coração, aquele tambor forte. Sentou-se e começou a batucar dos dois lados do coração: Bom, Bomm!... Bom, Bomm!



Enquanto marcava o ritmo, ela começou a cantar em voz alta.
— Carne, carne, carne! Carne, carne, carne! — E quanto mais cantava, mais seu corpo se revestia de carne. Ela cantou para ter cabelo, olhos saudáveis e mãos boas e gordas. Ela cantou para ter a divisão entre as pernas e seios compridos o suficiente para se enrolarem e dar calor, e todas as coisas de que as mulheres precisam.

Quando estava pronta, ela também cantou para despir o homem que dormia e se enfiou na cama com ele, a pele de um tocando a do outro. Ela devolveu o grande tambor, o coração, ao corpo dele, e foi assim que acordaram, abraçados um ao outro, enredados da noite juntos, agora de outro jeito, de um jeito bom e duradouro.

As pessoas que não conseguem se lembrar de como aconteceu sua primeira desgraça dizem que ela e o pescador foram embora e sempre foram bem alimentados pelas criaturas que ela conheceu na sua vida debaixo d'água. As pessoas garantem que é verdade e que é só isso o que sabem.

Do Livro Mulheres que correm com os lobos.

Manawee - Capítulo 4 - Mulheres que correm com os lobos

O parceiro: A união com o outro
Um hino para o Homem Selvagem: Manawee

Esse capítulo é muito fofinho. Como eu demorei a escrever sobre ele, algumas coisas cairam no esquecimento, no entanto, acho isso benéfico, pois assim, focarei no que realmente for importante.

Para ler o conto (oriento) clique aqui

Ensinamentos importantíssimos do livro:


  • Não podemos cair nas armadilhas. Se quisermos chegar a um lugar, precisamos manter o nosso foco;
  • precisamos estarmos atentas e fortes para lutar contra o estranho sinistro;
  • o estranho sinistro vai tentar arrancar de nós a sabedoria.

A natureza dual das mulheres

Partes que destaco:

Essa história fala do mistério de duas poderosas forças femininas numa única mulher.

O ser exterior vive à luz do dia e é observado com facilidade. Muitas vezes é uma pessoa pragmática,
aculturada e muito humana. Já a criatura costuma chegar à superfície vindo de muito longe e com freqüência aparece e desaparece rapidamente, embora sempre deixe uma sensação: algo de surpreendente, original e sagaz.

Da mesma forma, a mulher tem enormes poderes quando os aspectos duais individuais são reconhecidos consciente-mente e considerados como uma unidade; mantidos unidos em vez de separados. O poder de ser dois é muito forte, e nenhum dos dois lados deve ser negligenciado. Eles precisam ser alimentados da mesma forma, pois juntos proporcionam ao indivíduo um poder excepcional.

Na história, o pai das gêmeas age como guardião do par místico. Ele simboliza uma característica intrapsíquica real que garante a integridade de coisas que "ficam juntas" e que não são separadas. É ele que testa o valor, a "correção" do pretendente. Ter um guardião desse tipo é bom para as mulheres.

Uma psique saudável que contenha um guardião paternal não aceita simplesmente qualquer pensamento, atitude ou pessoa, apenas aquelas que são sensíveis ou que se esforçam para sê-lo.

A sedução furtiva dos apetites

Não é por acaso que homens e mulheres se esforçam para descobrir o lado mais profundo da sua natureza e, no entanto, têm sua atenção desviada por inúmeras razões, em sua maioria prazeres de diversos tipos. Alguns tornam-se dependentes dessas preferências e ficam para sempre enredados nelas, sem conseguir jamais continuar seu trabalho.

O cãozinho a princípio também é distraído pelo seu apetite. Os apetites são muitas vezes forajidos pequenos e encantadores, ladrões, dedicados ao roubo do tempo e da libido.


Jung observou que é preciso impor algum controle aos apetites humanos.

Podem se esquecer do que os motivava a agir.

Existem elementos na psique de todo mundo que são traiçoeiros, trapaceiros e maravilhosos. Esses elementos são inimigos da conscientização. Eles vicejam por manter tudo oculto e excitante.

A lembrança da verdadeira tarefa e sua repetida recordação dentro de nós mesmas, no estilo de um mantra, nos devolverá a consciência.

A conquista da ferocidade

O estranho sinistro pode ser encarnado por uma pessoa verdadeira no mundo exterior ou por um complexo negativo interno. Não importa qual seja a apresentação, o efeito devastador é o mesmo.

Isso pode ocorrer na vida objetiva quando um incidente, um lapso, algum acontecimento estranho de
qualquer natureza, surge de repente e tenta nos fazer esquecer quem nós somos.

Às vezes o único meio de aprendermos a nos manter fiéis ao nosso conhecimento profundo resulta do surgimento desse estranho à nossa frente. Somos, então, forçadas a lutar pelo que prezamos — lutar para ter firmeza naquilo a que nos dedicamos, lutar para superar nossas motivações espirituais mais superficiais, o que Robert Bly chama de "desejo de se sentir maravilhoso", lutar para terminar o que iniciamos.

Mulheres que correm com os lobos

sábado, 9 de setembro de 2017

Conto Manawee



Era uma vez um homem que vinha cortejar duas irmãs gêmeas.
— Você não poderá se casar com elas a não ser que consiga adivinhar seus nomes — dizia, porém, o pai das moças. Manawee tentava e tentava, mas não conseguia adivinhar os nomes das irmãs.



O pai das moças abanava a cabeça e mandava Manawee embora todas as vezes. Um dia Manawee levou seu cachorrinho junto numa visita de adivinhação, e o cachorro percebeu que uma irmã era mais bonita do que a outra e que a outra era mais delicada do que a primeira. Embora nenhuma das duas irmãs possuísse todas as virtudes, o cachorrinho gostou muito delas porque elas lhe deram petiscos e sorriram olhando fundo nos seus olhos.

Também naquele dia Manawee não conseguiu adivinhar os nomes das jovens e voltou irritado para casa. O cachorrinho, porém, voltou correndo para a choupana das irmãs. Ali ele enfiou a orelha por baixo de uma das paredes laterais e ouviu as moças dando risinhos e falando sobre como Manawee era bonito e másculo. Enquanto falavam, as irmãs se chamavam mutuamente pelo nome, e o cachorrinho, tendo ouvido, voltou correndo com a maior velocidade possível para seu dono para
lhe passar a informação.

No caminho, porém, um leão havia deixado um grande osso ainda com carne perto do caminho, e o minúsculo cachorrinho sentiu imediatamente o cheiro, não pensou em mais nada e se desviou mato adentro arrastando o osso. Ali, ele lambeu e mordiscou o osso com grande prazer até que todo o sabor desapareceu. Ah! O pequeno cãozinho de repente se lembrou da tarefa esquecida, mas infelizmente ele também havia esquecido os nomes das moças.


Por isso, ele correu de volta à choupana das gêmeas e dessa vez já era de noite e as jovens estavam passando óleo nos braços e pernas uma da outra e se arrumando como se fosse para uma festa. Mais uma vez o cãozinho as ouviu chamando-se mutuamente pelo nome. Ele deu pulos de alegria e estava correndo pelo caminho afora na direção da choupana de Manawee quando do meio do mato veio o aroma de noz-moscada fresca. Ora, não havia nada que o cachorrinho adorasse mais do que noz-moscada. Por isso, ele se desviou um pouco do caminho e correu para o lugar onde uma bela torta de laranjas estava esfriando em cima de uma tora. Bem, logo a torta já não existia mais, e o cachorrinho tinha um adorável hálito de noz-moscada. Enquanto trotava de volta para casa com a pança cheia, tentou pensar nos nomes das moças, mas, mais uma vez, ele os havia esquecido.

Finalmente, o cachorrinho tornou a voltar correndo até a choupana das irmãs, e dessa vez as irmãs estavam se preparando para se casar. "Ah, não!" pensou o cachorrinho, "quase não tenho mais tempo." E, quando as irmãs se chamaram pelo nome, ele guardou os nomes na mente e saiu em disparada, com a determinação resoluta e absoluta de que nada iria impedi-lo de transmitir os preciosos nomes a Manawee imediatamente.

O cãozinho vislumbrou caça pequena recém-morta no caminho, mas a ignorou e saltou por cima dela. Por um instante, pareceu-lhe sentir o aroma de noz-moscada no ar, mas ele o ignorou e preferiu continuar correndo na direção da sua casa e do seu dono. No entanto, ele não contava com a possibilidade de um estranho de negro saltar do mato, agarrá-lo pelo pescoço e sacudi-lo ao ponto de seu rabo quase cair.

Pois, foi o que aconteceu.
— Diga-me aqueles nomes! Diga-me os nomes das moças para que eu as possa conquistar — gritava o estranho o tempo todo.
O cãozinho achou que ia desmaiar com aquele punho lhe apertando o pescoço, mas lutou com bravura. Ele rosnou, arranhou, esperneou e, afinal, mordeu o estranho entre os dedos. Os dentes do animal picavam como vespas. O estranho berrava como um búfalo-da-índia, mas o cãozinho não o soltava. O estranho correu pelo mato adentro com o cãozinho pendurado numa das mãos.
— Solte-me, solte-me, cãozinho, e eu o soltarei — implorou o estranho de negro.
— Não me volte por aqui — rosnou entre dentes o cãozinho — ou não verá mais a luz do dia. — E assim o estranho fugiu pelo mato, gemendo enquanto corria. O cachorrinho prosseguiu meio mancando, meio correndo, pelo caminho até encontrar Manawee.

Muito embora seu pêlo estivesse sujo de sangue e suas mandíbulas doessem, os nomes das jovens estavam bem nítidos na sua mente, e ele se aproximou de Manawee, claudicante, mas feliz da vida. Manawee lavou os ferimentos do cãozinho, e este lhe contou toda a história assim como o nome das moças. Manawee correu de volta até a aldeia das moças com o cachorrinho nos ombros, e as orelhas do cachorro dançavam ao vento como rabos de cavalos.

Quando Manawee chegou até o pai com os nomes das filhas, as gêmeas receberam Manawee completamente vestidas para viajar com ele. Elas haviam estado à sua espera o tempo todo. Foi assim que Manawee conquistou duas das donzelas mais belas da região. E todos os quatro, as irmãs, Manawee e o cãozinho, viveram juntos em paz por muito tempo. Krik Krak Krout, now this story is out. Krik Krak Krun, now this story is done.


Do livro "Mulheres que correm com os lobos".

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Vasalisa, o poder da intuição


Olá! Este capítulo fala sobre intuição. O próprio título já diz muito:"Farejando os fatos: O resgate da intuição como iniciação"



Esse capítulo fala sobre o conto Vasalisa, para ler o conto clique aqui

O final dos contos de fadas, segundo a autora, terminam de forma abrupta para trazerem os ouvintes de volta a realidade.

"Vasalisa é uma história da transmissão da bênção do poder da intuição das mulheres de mãe para filha, de uma geração para a outra. Esse enorme poder, o da intuição, tem a rapidez de um raio e é composto de visão interior, audição interior, percepção interior e conhecimento interior."

"A iniciação é representada pelo cumprimento de certas tarefas. Nesse conto, há nove tarefas a serem cumpridas pela psique."

1ª tarefa: Permitir a morte da mãe-boa-demais

A autora fala da morte da mãe de Vasalisa.


As etapas psíquicas desse estágio são:


  • aceitar o fato de que a mãe psíquica protetora, sempre vigilante, não é adequada para ser um guia para a futura vida instintiva da pessoa (a mãe-boa-demais morre).
  • Assumir a realidade de estar só, de desenvolver a própria conscientização quanto ao perigo, às intrigas, à política. 
  • Tornar-se alerta sozinha, para seu próprio proveito; 
  • deixar morrer o que deve morrer. 
O conto fala então dessa primeira etapa da iniciação, que seria perder, sair dos cuidados da "mãe boa demais" e ficar agora sob os cuidados da mãe intuição. No entanto, pode ocorrer interrupção no processo iniciático da mulher por vários motivos, um exemplo que a autora cita é quando houve um excesso de problemas psicológicos no início da vida - "quando não houve a presença uniforme da mãe "suficientemente boa" nos primeiros anos de vida." Ou então quando a mãe superprotege. 

2ª tarefa: Denunciar a natureza sombria

A madrasta e as filhas tornam a vida de Vasalisa uma desgraça.

As tarefas desse período são:


  • aprender ainda com maior conscientização a largar a mãe excessivamente positiva. 
  • Descobrir que ser boazinha, que ser gentil e simpática não fará a vida florir. (Vasalisa torna-se escrava, mas isso de nada adianta.) , isso me lembrou o filme Dogville com Nicole Kidman, que ela cede a todos de uma pequena cidade (Dogville) para ser aceita por eles e no final não é aceita (tem uma parte muito ruim, mas não quero fazer spoiler)
  • Vivenciar diretamente a própria natureza sombria, especialmente os aspectos exploradores, ciumentos e rejeitadores do self (a madrasta e suas filhas). 
  • Incorporar esses aspectos. 
  • Criar o melhor relacionamento possível com as piores partes de si mesma.
  • Deixar acumular a tensão entre quem se aprendeu a ser e quem se é realmente.
  • Trabalhar, afinal, no sentido de deixar morrer o velho self para que nasça o novo self intuitivo.


Nesse momento estou me perguntando como podemos fazer isso... 

Continuando na leitura, algumas partes que destaquei:

"Neste estágio da iniciação, a mulher vê-se acossada por exigências banais da sua psique que a exortam a atender qualquer desejo de qualquer um."


A família da madrasta é como um "coro de megeras" que fica dizendo a todo momento que Vasalisa não é capaz. 

3ª tarefa: Navegar nas trevas

Essa é a parte que Vasalisa anda nas trevas vai até a casa de Baba Yaga. Ela recebe as orientações da boneca. Nesse estágio, são esses as tarefas que a autora evidencia:

  • Consentir em se aventurar a penetrar no local da iniciação profunda (entrada na floresta) e começar a experimentar o sentimento numinoso novo e aparentemente perigoso de estar imersa no poder intuitivo. 
  • Aprender a desenvolver a sensibilidade ao inconsciente misterioso no que se relaciona ao direcionamento e confiar exclusivamente nos próprios sentidos interiores. 
  • Aprender o caminho de volta para a casa da Mãe Selvagem (obedecendo às instruções da boneca. 
  • Aprender a nutrir a intuição (alimentar a boneca). 
  • Deixar que a mocinha frágil e ingênua morra ainda mais. 
  • Transferir o poder para a boneca, ou seja, para a intuição.
A autora vai nos falando do relacionamento entre a mulher e a intuição, que devemos nutrir a intuição e a forma de alimentá-la é ouvindo-a. Devemos prestar atenção à voz interior.

Algumas perguntas feitas pela autora:

  • “Devo ir para esse lado ou para o outro? 
  • Devo ficar ou partir? 
  • Devo resistir ou ser flexível?
  • Devo fugir disso ou correr na sua direção? 
  • Essa pessoa, esse acontecimento, essa empreitada, é verdadeira ou falsa?”


4ª tarefa: Encarar a megera selvagem

É nesse ponto aqui que a Vasalisa encontra-se com a Baba Yaga (megera) pessoalmente, nesse momento, as tarefas a serem realizadas são:

  • Ser capaz de suportar o rosto apavorante da Deusa Selvagem sem hesitar (topar com a Baba Yaga). 
  • Familiarizar-se com o mistério, a estranheza, a “alteridade” do selvagem (residir na casa de Baba Yaga por algum tempo). 
  • Adotar nas nossas vidas alguns dos seus valores, tornando-nos, portanto, também um pouco estranhas (comer seus alimentos). 
  • Aprender a encarar um poder enorme nos outros e subseqüentemente nosso próprio poder.
  • Permitir que a criança frágil e boazinha em excesso vá definhando ainda mais.
A autora fala que o excesso de normalidade vai nos contaminando, tornando nossa nosso cotidiano sem vida e isso estimula a negligência com a intuição. que produz a falta de luz na psique. 

Algumas frases:


"A atitude de respeito diante de um poder extremo é uma lição fundamental."

" A mulher precisa ser capaz de se manter diante do poder, porque em última análise alguma parte desse poder passará às suas mãos."

A Vasalisa se apresenta a Baba Yaga com honestidade, "exatamente como ela é". 

"Muitas mulheres estão se recuperando dos seus complexos de "ser boazinhas", nos quais, independente de como se sentissem, independente do que as acossasse, elas reagiam de uma forma tão doce a ponto de ser praticamente humilhante."

"O inconsciente, ao seu modo brilhante, oferece a quem sonha uma idéia sobre um novo estilo de vida que não se restringe ao sorriso frontal e fácil da mulher "boazinha demais"."

A autora diz que dá medo quando a mulher usa os poderes selvagens.

"Ser forte não significa desenvolver os músculos e exercitá-los. Significa, sim, encontrar nossa própria numinosidade sem fugir, convivendo ativamente com a natureza selvagem ao nosso próprio modo. Significa ser capaz de aprender, e ser capaz de agüentar o que sabemos. Significa manter-se firme e viver."

5ª tarefa - Servir o não racional:

Vasalisa pede fogo, mas a Baba Yaga só vai dar o fogo se a menina cumprir algumas serviços domésticos em troca.

As tarefas psíquicas desse período do aprendizado são:
  • ficar com a Deusa Megera;
  • aclimatar-se às imensas forças selvagens da psique feminina; 
  • Chegar a reconhecer o poder dela (o seu poder) e os poderes das purificações interiores; 
  • limpar, escolher, alimentar, criar energia e idéias (lavar as roupas da Yaga, cozinhar para ela, limpar sua casa e separar os elementos).

"Lavar alguma coisa é um ritual de purificação atemporal. Ele não representa apenas a purificação."

Primeiro é a lavagem de roupas, a roupas é como a persona. Ela diz que as roupas são como nós, se desgastam com o tempo. E lavar é como lavar as fibras do ser. 

1ª tarefa: Lavar roupas

"A tarefa seguinte é a de varrer o casebre e o quintal. Nos contos de fadas do leste europeu, as vassouras muitas vezes são feitas de gravetos de árvores e arbustos, e ocasionalmente das raízes de plantas rijas. O trabalho de Vasalisa consiste em passar esse objeto feito de matérias vegetais sobre o piso da casa e do quintal para manter o local limpo de resíduos. A mulher sábia mantém seu ambiente psíquico organizado. Ela consegue isso mantendo a cabeça limpa, mantendo um local limpo para seu trabalho e se dedicando a completar suas idéias e projetos."

"Varrer o ambiente significa não só começar a valorizar a vida não-superficial, mas também cuidar da sua organização."

"A varredura cíclica evitará que isso ocorra. Quando a mulher dispõe de espaço livre, a natureza selvagem viceja melhor."

2ª tarefa: varrer a casa


Cozinhar para Baba Yaga: "é a paixão que provoca o cozimento, e as idéias significativas da mulher são o alimento que é preparado. Para cozinhar para a Yaga, daremos um jeito para que nossa vida criativa tenha um fogo constante a aquecê-la."

"Seria melhor para a maioria de nós se nos tornássemos mais competentes em vigiar o fogo que está por baixo do nosso trabalho, se observássemos com mais cuidado o processo de cozimento para a nutrição do Self selvagem. Infelizmente, muitas vezes voltamos as costas à panela, ao fogão. Esquecemo-nos de vigiar, esquecemo-nos de acrescentar lenha, esquecemo-nos de mexer."

"Portanto, é o cozimento de novas coisas, novos rumos, da dedicação à nossa arte e ao nosso trabalho que alimenta a alma selvagem permanentemente. É isso mesmo o que nutre a Velha Mãe Selvagem e lhe dá sustento na nossa psique."

3ª tarefa: cozinhar para Baba Yaga

"Vasalisa, através da boneca da intuição, está aprendendo a escolher, a compreender, a manter em
ordem, a limpar e a arrumar o ambiente da psique."

"Os ciclos das mulheres de acordo com as tarefas de Vasalisa são os seguintes:

  • limpar nosso pensamento, renovando nossos valores com regularidade; 
  • eliminar da nossa psique as insignificâncias, varrê-las, 
  • purificar nossos estados de pensamento e sentimento com regularidade. 
  • Acender a fogueira criativa e cozinhar idéias num ritmo sistemático  
  • cozinhar muito para alimentar o relacionamento entre nós mesmos e a natureza selvagem.

6ª tarefa: Separar isso daquilo

Nessa parte, Baba Yaga exige de Vasalisa que ela cumpra as tarefas de separar as coisas.

"As tarefas psíquicas da mulher são as seguintes:


  • aprender a discriminar meticulosamente, a separar as coisas umas das outras com o melhor discernimento,
  • aprender a fazer distinções sutis (ao escolher o milho mofado do milho são e ao selecionar as sementes de papoula de um monte de estrume). 
  • Observar o poder do inconsciente e como ele funciona mesmo quando, o ego não está familiarizado (os pares de mãos que aparecem no ar). 
  • Aprender mais sobre a vida (o milho) e a morte (as sementes de papoula).

"A separação relatada nessa história é do tipo que surge quando nos deparamos com um dilema ou com uma pergunta, mas sem que nos ocorram muitas idéias que nos ajudem a resolver a questão. Se a deixamos em paz, no entanto, e voltamos mais tarde a ela, pode ser que uma boa solução esteja à nossa espera ali onde antes não havia nada. Ou “vá dormir, veja com que vai sonhar”, talvez a velha de dois milhões de anos chegue das trevas para visitá-la."

Agora vou falar de uma das partes que a autora diz ser uma das mais bonitas da história: é quando a Baba Yaga pede para Vasalisa separar o milho bom do milho mofado e as sementes de papoula do estrume, a autora diz que é como se a velha estivesse dizendo ou estimulando a menina a aprender a diferença entre o que faz bem e o que não faz. Entre o que pode causar alegria ou desperdiçar a vida, a diferenciar os medicamentos... 

Esses medicamentos são os remédios para a psique. 

7ª tarefa - Perguntar sobre os mistérios

Nesse momento, a menina consegue realizar todas as tarefas, aí ela pergunta a Baba Yaga sobre os mistérios: o que significa o cavalo branco, vermelho e o branco.

"As perguntas deste estágio são as seguintes: 
  • Perguntar e tentar aprender mais a respeito da natureza da vida-morte-vida e de seu funcionamento (Vasalisa pergunta sobre os cavaleiros). 
  • Aprender a verdade acerca da capacidade de compreender todos os elementos da natureza selvagem ("saber demais pode envelhecer a pessoa antes do tempo")."

8ª tarefa: De pé nas quatro patas

Nessa parte da história, Baba Yaga sente repulsa pelo fato de Vasalisa ter recebido a benção da mãe e manda a menina embora com o fogo saindo de uma caveira.

"As tarefas desta parte da história são as seguintes: 
  • assumir um poder imenso de ver e afetar os outros (o recebimento da caveira). 
  • Ver as situações da própria vida com essa nova luz (descobrir o caminho de volta à família da madrasta).
9ª tarefa: reformular a sombra

Vasalisa volta para casa, no meio do caminho sente medo e pensa em jogar fora a caveira com o fogo... Mas a caveira a tranquiliza. Quando chega em casa a caveira vê a madrasta e as irmãs de Vasalisa e as queima por dentro, de manhã, antes do amanhecer, elas três viraram cinzas...

"São as seguintes as tarefas desse estágio: 

  • usar a própria visão aguçada (os olhos incandescentes) para reconhecer a sombra negativa da nossa própria psique e/ou os aspectos negativos das pessoas e acontecimentos do mundo exterior bem como para reagir a eles. 
  • Reformular as sombras negativas da própria psique com o fogo-da-megera (a perversa família da madrasta, que anteriormente torturava Vasalisa, é reduzida a cinzas).

"Por um momento, Vasalisa sente medo do poder que carrega e pensa em jogar fora a caveira luminosa. Com esse poder formidável às suas ordens, não é de surpreender que ocorra ao seu ego que talvez fosse melhor, mais fácil, mais seguro, livrar-se dessa luz ardente, tendo em vista seu valor e o valor que Vasalisa adquiriu com ela. No entanto, uma voz sobrenatural de dentro da caveira recomenda que ela fique calma e siga em frente. E isso ela consegue fazer."

"Não obstante, há horas em que suas informações são dolorosas e quase insuportáveis; pois a caveira aponta para o lugar onde se trama a traição, onde a coragem falta àqueles que dizem o contrário. Ela denuncia a inveja oculta como gordura fria por trás de um sorriso de carinho. Ela indica os olhares que são meras máscaras para a aversão. No que diz respeito a nós mesmas, sua luz brilha com a mesma intensidade: ela ilumina nossos tesouros bem como nossas fraquezas."

"Não podemos manter a conscientização adquirida no encontro com a Deusa Megera e ao transportar a luz incandescente, se convivermos com seres cruéis interna ou externamente. Se estivermos cercadas de pessoas que reviram os olhos e olham para o teto demonstrando repulsa quando estamos por perto, quando falamos, agimos e reagimos, isso é um sinal de que estamos com pessoas que abafam as paixões — as nossas e provavelmente também as delas mesmas. Não são pessoas que liguem para nós, para nosso trabalho, para nossa vida."

A autora faz um exemplo de bufê com várias comidas em cima, a gente pode olhar para essas comidas e pensar: vou comer um pedaço disso, mais um pouco disso e daquilo. Mas será que a gente queria comer aquilo mesmo ou só sentimos vontade por estava a nossa vista? O melhor será a gente fazer a pergunta: "Estou com fome de quê?", e ir atrás disso que queremos.

E, finalizando, "deixar morrer é o tema do final da história. Vasalisa aprendeu sua lição. Ela cai numa crise histérica quando a caveira faz arder as mulheres perversas? Não. O que deve morrer morre."

Para ler o conto Vasalisa clique aqui

Outras partes do livro Mulheres que correm com os lobos, clique nos links:
Introdução
Capítulo 1 - La Loba
Capítulo 2 - Barba Azul



domingo, 27 de agosto de 2017

Conto Vasalisa

Vasalisa

Era uma vez, e não era uma vez, uma jovem mãe que jazia no seu leito de morte, com o rosto pálido como as rosas brancas de cera na sacristia da igreja dali de perto. Sua filhinha e seu marido estavam sentados aos pés da sua velha cama de madeira e oravam para que Deus a conduzisse em segurança até o outro mundo.

A mãe moribunda chamou Vasalisa, e a criança de botas vermelhas e avental branco ajoelhou-se ao lado da mãe.
— Essa boneca é para você, meu amor — sussurrou a mãe, e da coberta felpuda ela tirou uma bonequinha minúscula que, como a própria Vasalisa, usava botas vermelhas, avental branco, saia preta e colete todo bordado com linha colorida.


— Estas são as minhas últimas palavras, querida — disse a mãe. — Se você se perder ou precisar de ajuda, pergunte à boneca o que fazer. Você receberá ajuda. Guarde sempre a boneca. Não fale a ninguém sobre ela. Dê-lhe de comer quando ela estiver com fome. Essa é a minha promessa de mãe para você, minha bênção, querida. — E, com essas palavras, a respiração da mãe mergulhou nas profundezas do seu corpo, onde recolheu sua alma, e saiu correndo pelo lábios; e a mãe morreu.

A criança e o pai choraram sua morte muito tempo. No entanto, como o campo arrasado pela guerra, a vida do pai voltou a verdejar por entre os sulcos e ele desposou uma viúva com duas filhas. Embora a nova madrasta e suas filhas fossem gentis e sorrissem como damas, havia algo de corrosivo por trás dos sorrisos que o pai de Vasalisa não percebia.

Realmente, quando as três estavam sozinhas com Vasalisa, elas a atormentavam, forçavam-na a lhes servir de criada, mandavam-na cortar lenha para que sua pele delicada se ferisse. Elas a detestavam porque Vasalisa tinha uma doçura que não parecia deste mundo. Ela era também muito bonita. Seus seios eram fartos, enquanto os delas definhavam de maldade. Ela era solícita e não se queixava,
enquanto a madrasta e as duas filhas eram, entre si mesmas, como ratos no monte de lixo à noite.
Um dia a madrasta e suas filhas simplesmente não conseguiam mais agüentar Vasalisa.
— Vamos... combinar de deixar o fogo se apagar e, então, vamos mandar Vasalisa entrar na floresta para ir pedir fogo para nossa lareira a Baba Yaga, a bruxa. E, quando ela chegar até Baba Yaga, bem, a velha irá matá-la e comê-la. — As três bateram palmas e guincharam como animais que vivem na escuridão.

Por isso, naquela noite, quando Vasalisa voltou para casa depois de catar lenha, a casa estava completamente às escuras. Ela ficou muito preocupada e falou com a madrasta.
— O que aconteceu? Como vamos fazer para cozinhar? O que vamos fazer para iluminar as trevas?
— Sua imbecil — reclamou a madrasta. — É claro que não temos fogo. E eu não posso sair para o bosque devido à minha idade. Minhas filhas não podem ir porque têm medo. Você é a única que tem condições de sair floresta adentro para encontrar Baba Yaga e conseguir dela uma brasa para acender nosso fogo de novo.
— Ora, está bem — respondeu Vasalisa inocente. — É o que vou fazer. — E foi mesmo. A floresta ia ficando cada vez mais escura, e os gravetos estalavam sob seus pés, deixando assustada. Ela enfiou a mão bem fundo no bolso do avental e ali estava a boneca que a mãe ao morrer lhe havia dado.
— Só de tocar nessa boneca, já me sinto melhor — disse Vasalisa, acariciando a boneca no bolso.
— A cada bifurcação da estrada, Vasalisa enfiava a mão bolso e consultava a boneca. “Bem, eu devo ir para a esquerda ou para direita?” A boneca respondia “Sim”, “Não”, “Para esse lado” ou “Para aquele lado”. E Vasalisa dava à boneca um pouco de pão enquanto ia caminhando, seguindo o que sentia estar emanando da boneca.

Homem no cavalo branco


De repente, um homem de branco num cavalo branco passou galopando, e o dia nasceu. Mais adiante, um homem de vermelho passou montado num cavalo vermelho, e o sol apareceu. Vasalisa caminhou e caminhou e, bem na hora em que estava chegando ao casebre de Baba Yaga, um cavaleiro vestido de negro passou trotando e entrou direto no casebre. Imediatamente fez-se noite.

Homem no cavalo vermelho


A cerca feita de caveiras e ossos ao redor da choupana começou a refulgir com um fogo interno de tal
forma que a clareira ali na floresta ficou iluminada com uma luz espectral.



Ora, Baba Yaga era uma criatura muito temível. Ela viajava, não num coche, nem numa carruagem, mas num caldeirão com o formato de um gral que voava sozinho. Ela remava esse veículo com um remo que parecia um pilão e o tempo todo varria o rastro por onde passava com uma vassoura feita do cabelo de alguém morto há muito tempo.

E o caldeirão veio voando pelo céu, com o próprio cabelo sebento de Baba Yaga na esteira. Seu queixo comprido curvado para cima e seu longo nariz era curvado para baixo de modo que os dois se encontravam a meio caminho. Baba Yaga tinha um ínfimo cavanhaque branco e verrugas na pele adquiridas de seus contatos com sapos. Suas unhas manchadas de marrom eram grossas e estriadas como telhados, e tão compridas e recurvas que ela não conseguia fechar a mão.



Ainda mais estranha era a casa de Baba Yaga. Ela ficava em cima de enormes pernas de galinha, amarelas e escamosas, e andava de um lado para o outro sozinha. Ela às vezes girava e girava como uma bailarina em transe. As cavilhas nas portas e janelas eram feitas de dedos humanos, das mãos e dos pés e a tranca da porta da frente era um focinho com muitos dentes pontiagudos. Vasalisa consultou sua boneca. "E essa casa que procuramos?" E a boneca, a seu modo, respondeu: "É, é essa a que procuramos." E antes que ela pudesse dar mais um passo. Baba Yaga no seu caldeirão desceu sobre Vasalisa, aos gritos.
— O que você quer?
— Vovó, vim apanhar fogo — respondeu a menina, estremecendo. — Está frio na minha casa... o meu pessoal vai morrer... preciso de fogo.
— Ah, sssssei — retrucou Baba Yaga, rabugenta. — Conheço você e o seu pessoal. Bem, criança inútil... você deixou o fogo se apagar. O que é muita imprudência. Além do mais, o que a fez pensar que eu lhe daria a chama?
— Porque eu estou pedindo — respondeu rápido Vasalisa depois de consultar a boneca.
— Você tem sorte — ronronou Baba Yaga. — Essa é a resposta certa.
E Vasalisa se sentiu com muita sorte por ter acertado a resposta. Baba Yaga, porém, a ameaçou.
— Não há a menor possibilidade de eu lhe dar o fogo antes de você fazer algum trabalho para mim. Se você realizar essas tarefas para mim, receberá o fogo. Se não...
— E nesse ponto Vasalisa viu que os olhos de Baba Yaga de repente se transformavam em brasas. — Se não, minha filha, você morrerá.

E assim Baba Yaga entrou pesadamente no casebre, deitou-se na cama e mandou que Vasalisa lhe trouxesse a comida que estava no forno. No forno havia comida suficiente para dez pessoas, e a Yaga comeu tudo, deixando uma pequena migalha e um dedal de sopa para Vasalisa. Lave minha roupa, varra a casa e o quintal, prepare minha comida, separe o milho mofado do milho bom e certifique-se de que tudo está em ordem. Volto mais tarde para inspecionar seu trabalho. Se tudo não estiver pronto, você será meu banquete. — E com isso a Baba Yaga partiu voando no seu caldeirão com o nariz lhe servindo de biruta e o cabelo, de vela. E anoiteceu novamente.
— Vasalisa voltou-se para a boneca assim que a Yaga se foi.
 — O que vou fazer? Vou conseguir cumprir as tarefas a tempo? — A boneca disse que sim e recomendou que ela comesse algo e fosse dormir. Vasalisa deu algo de comer à boneca também e adormeceu.

Pela manhã, a boneca havia feito todo o trabalho, e só faltava preparar a refeição. À noite, a Yaga voltou e não encontrou nada por fazer. Satisfeita, de certo modo, mas irritada por não conseguir encontrar nenhuma falha, Baba Yaga zombou de Vasalisa.
— Você é uma menina de sorte. — Ela, então, convocou seus fiéis criados para moer o milho, e três pares de mãos apareceram em pleno ar e começaram a raspar e esmagar o milho. Os resíduos pairavam no ar como uma neve dourada. Finalmente, o serviço terminou, e Baba Yaga se sentou para comer. Comeu horas a fio e deu ordens a Vasalisa para que no dia seguinte limpasse a casa, varresse o quintal e lavasse a roupa.

Três pares de mãos

— Naquele monte de estrume — disse a Yaga, apontando para um enorme monte de estrume no quintal — há muitas sementes de papoula, milhões de sementes de papoula. Amanhã quero encontrar um monte de sementes de papoula e um monte de estrume, completamente separados um do outro. Compreendeu?
— Meu Deus, como vou fazer isso? — exclamou Vasalisa, quase desmaiando.
— Não se preocupe, eu me encarrego — sussurrou a boneca, quando a menina enfiou a mão no bolso.

Naquela noite. Baba Yaga adormeceu roncando, e Vasalisa tentou... catar... as... sementes de papoula... do... meio... do... estrume.
— Durma agora — disse-lhe a boneca, depois de algum tempo. — Tudo vai dar certo.
Mais uma vez, a boneca executou todas as tarefas e, quando a velha voltou, tudo estava pronto.
— Ora, ora! Que sorte a sua de conseguir acabar tudo! — disse Baba Yaga, falando sarcástica pelo nariz. Ela chamou seus fiéis criados para prensar o óleo das sementes, e novamente três pares de mãos apareceram e cumpriram a tarefa. Enquanto a Yaga estava besuntando os lábios na gordura;
do cozido, Vasalisa ficou parada por perto.
— E aí, o que é que você está olhando? — perguntou Baba Yaga, de mau humor.
— Posso lhe fazer umas perguntas, vovó? — perguntou Vasalisa.
— Pergunte — ordenou a Yaga —, mas lembre-se, saber demais envelhece as pessoas antes do tempo.
Vasalisa perguntou quem era o homem de branco no cavalo branco.
— Ah — respondeu a Yaga, com carinho. — Esse primeiro é o meu Dia.
— E o homem de vermelho no cavalo vermelho?
— Ah, esse é o meu Sol Nascente.
— E o homem de negro no cavalo negro?
— Ah, sim, esse é o terceiro e ele é a minha Noite.
— Entendi — disse Vasalisa.
— Vamos, vamos, minha criança. Não quer me fazer mais perguntas? — sugeriu a Yaga, manhosa.
Vasalisa estava a ponto de perguntar sobre os pares de mãos que apareciam e desapareciam, mas a boneca começou a saltar dentro do bolso e, em vez disso, Vasalisa respondeu.
— Não, vovó. Como a senhora mesma diz, saber demais pode envelhecer a pessoa antes da hora.
— É — disse a Yaga, inclinando a cabeça como um passarinho —, você é muito ajuizada para a sua idade, menina. Como conseguiu isso?
— Foi a bênção da minha mãe — disse Vasalisa, com um sorriso.
— Bênção?! — guinchou Baba Yaga. — Bênção?! Não precisamos de bênção nenhuma aqui nesta casa. É melhor você procurar seu caminho, filha. — E foi empurrando Vasalisa para o lado de fora. — Vou lhe dizer uma coisa, menina. Olhe aqui! — Baba Yaga tirou uma caveira de olhos candentes da cerca e a enfiou numa vara. — Pronto! Leve esta caveira na vara até sua casa. Isso! Esse é o seu fogo. Não diga mais uma palavra sequer. Só vá embora.

Vasalisa ia agradecer à Yaga, mas a bonequinha no fundo do bolso começou a saltar para cima e para baixo, e Vasalisa percebeu que devia só apanhar o fogo e ir embora. Ela voltou correndo para casa, seguindo as curvas e voltas da estrada com a boneca lhe indicando o caminho. Era noite, e Vasalisa atravessou a floresta com a caveira numa vara, com o brilho do fogo saindo pelos buracos dos ouvidos, dos olhos, do nariz e da boca. De repente, ela sentiu medo dessa luz espectral e pensou em jogála fora, mas a caveira falou com ela, insistindo para que se acalmasse e prosseguisse
para a casa da madrasta e das filhas.



Quando Vasalisa ia se aproximando da casa, a madrasta e suas filhas olharam pela janela e viram uma luz estranha que vinha dançando pela mata. Cada vez chegava mais perto. Elas não podiam imaginar o que aquilo seria. Já haviam concluído que a longa ausência de Vasalisa indicava que ela a essa altura estava morta, que seus ossos haviam sido carregados por animais, e que bom que ela havia
desaparecido!

Vasalisa chegava cada vez mais perto de casa. E, quando a madrasta e suas filhas viram que era ela, correram na sua direção dizendo que estavam sem fogo desde que ela havia saído e que, por mais que tentassem acender um, ele sempre se extinguia.

Vasalisa entrou na casa, sentindo-se vitoriosa por ter sobrevivido à sua perigosa jornada e por ter trazido o fogo para casa. No entanto, a caveira na vara ficou observando cada movimento da madrasta e das duas filhas, queimando-as por dentro. Antes de amanhecer, ela havia reduzido a cinzas aquele trio perverso.

Do livro Mulheres que correm com os lobos.