domingo, 27 de agosto de 2017

Conto Vasalisa

Vasalisa

Era uma vez, e não era uma vez, uma jovem mãe que jazia no seu leito de morte, com o rosto pálido como as rosas brancas de cera na sacristia da igreja dali de perto. Sua filhinha e seu marido estavam sentados aos pés da sua velha cama de madeira e oravam para que Deus a conduzisse em segurança até o outro mundo.

A mãe moribunda chamou Vasalisa, e a criança de botas vermelhas e avental branco ajoelhou-se ao lado da mãe.
— Essa boneca é para você, meu amor — sussurrou a mãe, e da coberta felpuda ela tirou uma bonequinha minúscula que, como a própria Vasalisa, usava botas vermelhas, avental branco, saia preta e colete todo bordado com linha colorida.


— Estas são as minhas últimas palavras, querida — disse a mãe. — Se você se perder ou precisar de ajuda, pergunte à boneca o que fazer. Você receberá ajuda. Guarde sempre a boneca. Não fale a ninguém sobre ela. Dê-lhe de comer quando ela estiver com fome. Essa é a minha promessa de mãe para você, minha bênção, querida. — E, com essas palavras, a respiração da mãe mergulhou nas profundezas do seu corpo, onde recolheu sua alma, e saiu correndo pelo lábios; e a mãe morreu.

A criança e o pai choraram sua morte muito tempo. No entanto, como o campo arrasado pela guerra, a vida do pai voltou a verdejar por entre os sulcos e ele desposou uma viúva com duas filhas. Embora a nova madrasta e suas filhas fossem gentis e sorrissem como damas, havia algo de corrosivo por trás dos sorrisos que o pai de Vasalisa não percebia.

Realmente, quando as três estavam sozinhas com Vasalisa, elas a atormentavam, forçavam-na a lhes servir de criada, mandavam-na cortar lenha para que sua pele delicada se ferisse. Elas a detestavam porque Vasalisa tinha uma doçura que não parecia deste mundo. Ela era também muito bonita. Seus seios eram fartos, enquanto os delas definhavam de maldade. Ela era solícita e não se queixava,
enquanto a madrasta e as duas filhas eram, entre si mesmas, como ratos no monte de lixo à noite.
Um dia a madrasta e suas filhas simplesmente não conseguiam mais agüentar Vasalisa.
— Vamos... combinar de deixar o fogo se apagar e, então, vamos mandar Vasalisa entrar na floresta para ir pedir fogo para nossa lareira a Baba Yaga, a bruxa. E, quando ela chegar até Baba Yaga, bem, a velha irá matá-la e comê-la. — As três bateram palmas e guincharam como animais que vivem na escuridão.

Por isso, naquela noite, quando Vasalisa voltou para casa depois de catar lenha, a casa estava completamente às escuras. Ela ficou muito preocupada e falou com a madrasta.
— O que aconteceu? Como vamos fazer para cozinhar? O que vamos fazer para iluminar as trevas?
— Sua imbecil — reclamou a madrasta. — É claro que não temos fogo. E eu não posso sair para o bosque devido à minha idade. Minhas filhas não podem ir porque têm medo. Você é a única que tem condições de sair floresta adentro para encontrar Baba Yaga e conseguir dela uma brasa para acender nosso fogo de novo.
— Ora, está bem — respondeu Vasalisa inocente. — É o que vou fazer. — E foi mesmo. A floresta ia ficando cada vez mais escura, e os gravetos estalavam sob seus pés, deixando assustada. Ela enfiou a mão bem fundo no bolso do avental e ali estava a boneca que a mãe ao morrer lhe havia dado.
— Só de tocar nessa boneca, já me sinto melhor — disse Vasalisa, acariciando a boneca no bolso.
— A cada bifurcação da estrada, Vasalisa enfiava a mão bolso e consultava a boneca. “Bem, eu devo ir para a esquerda ou para direita?” A boneca respondia “Sim”, “Não”, “Para esse lado” ou “Para aquele lado”. E Vasalisa dava à boneca um pouco de pão enquanto ia caminhando, seguindo o que sentia estar emanando da boneca.

Homem no cavalo branco


De repente, um homem de branco num cavalo branco passou galopando, e o dia nasceu. Mais adiante, um homem de vermelho passou montado num cavalo vermelho, e o sol apareceu. Vasalisa caminhou e caminhou e, bem na hora em que estava chegando ao casebre de Baba Yaga, um cavaleiro vestido de negro passou trotando e entrou direto no casebre. Imediatamente fez-se noite.

Homem no cavalo vermelho


A cerca feita de caveiras e ossos ao redor da choupana começou a refulgir com um fogo interno de tal
forma que a clareira ali na floresta ficou iluminada com uma luz espectral.



Ora, Baba Yaga era uma criatura muito temível. Ela viajava, não num coche, nem numa carruagem, mas num caldeirão com o formato de um gral que voava sozinho. Ela remava esse veículo com um remo que parecia um pilão e o tempo todo varria o rastro por onde passava com uma vassoura feita do cabelo de alguém morto há muito tempo.

E o caldeirão veio voando pelo céu, com o próprio cabelo sebento de Baba Yaga na esteira. Seu queixo comprido curvado para cima e seu longo nariz era curvado para baixo de modo que os dois se encontravam a meio caminho. Baba Yaga tinha um ínfimo cavanhaque branco e verrugas na pele adquiridas de seus contatos com sapos. Suas unhas manchadas de marrom eram grossas e estriadas como telhados, e tão compridas e recurvas que ela não conseguia fechar a mão.



Ainda mais estranha era a casa de Baba Yaga. Ela ficava em cima de enormes pernas de galinha, amarelas e escamosas, e andava de um lado para o outro sozinha. Ela às vezes girava e girava como uma bailarina em transe. As cavilhas nas portas e janelas eram feitas de dedos humanos, das mãos e dos pés e a tranca da porta da frente era um focinho com muitos dentes pontiagudos. Vasalisa consultou sua boneca. "E essa casa que procuramos?" E a boneca, a seu modo, respondeu: "É, é essa a que procuramos." E antes que ela pudesse dar mais um passo. Baba Yaga no seu caldeirão desceu sobre Vasalisa, aos gritos.
— O que você quer?
— Vovó, vim apanhar fogo — respondeu a menina, estremecendo. — Está frio na minha casa... o meu pessoal vai morrer... preciso de fogo.
— Ah, sssssei — retrucou Baba Yaga, rabugenta. — Conheço você e o seu pessoal. Bem, criança inútil... você deixou o fogo se apagar. O que é muita imprudência. Além do mais, o que a fez pensar que eu lhe daria a chama?
— Porque eu estou pedindo — respondeu rápido Vasalisa depois de consultar a boneca.
— Você tem sorte — ronronou Baba Yaga. — Essa é a resposta certa.
E Vasalisa se sentiu com muita sorte por ter acertado a resposta. Baba Yaga, porém, a ameaçou.
— Não há a menor possibilidade de eu lhe dar o fogo antes de você fazer algum trabalho para mim. Se você realizar essas tarefas para mim, receberá o fogo. Se não...
— E nesse ponto Vasalisa viu que os olhos de Baba Yaga de repente se transformavam em brasas. — Se não, minha filha, você morrerá.

E assim Baba Yaga entrou pesadamente no casebre, deitou-se na cama e mandou que Vasalisa lhe trouxesse a comida que estava no forno. No forno havia comida suficiente para dez pessoas, e a Yaga comeu tudo, deixando uma pequena migalha e um dedal de sopa para Vasalisa. Lave minha roupa, varra a casa e o quintal, prepare minha comida, separe o milho mofado do milho bom e certifique-se de que tudo está em ordem. Volto mais tarde para inspecionar seu trabalho. Se tudo não estiver pronto, você será meu banquete. — E com isso a Baba Yaga partiu voando no seu caldeirão com o nariz lhe servindo de biruta e o cabelo, de vela. E anoiteceu novamente.
— Vasalisa voltou-se para a boneca assim que a Yaga se foi.
 — O que vou fazer? Vou conseguir cumprir as tarefas a tempo? — A boneca disse que sim e recomendou que ela comesse algo e fosse dormir. Vasalisa deu algo de comer à boneca também e adormeceu.

Pela manhã, a boneca havia feito todo o trabalho, e só faltava preparar a refeição. À noite, a Yaga voltou e não encontrou nada por fazer. Satisfeita, de certo modo, mas irritada por não conseguir encontrar nenhuma falha, Baba Yaga zombou de Vasalisa.
— Você é uma menina de sorte. — Ela, então, convocou seus fiéis criados para moer o milho, e três pares de mãos apareceram em pleno ar e começaram a raspar e esmagar o milho. Os resíduos pairavam no ar como uma neve dourada. Finalmente, o serviço terminou, e Baba Yaga se sentou para comer. Comeu horas a fio e deu ordens a Vasalisa para que no dia seguinte limpasse a casa, varresse o quintal e lavasse a roupa.

Três pares de mãos

— Naquele monte de estrume — disse a Yaga, apontando para um enorme monte de estrume no quintal — há muitas sementes de papoula, milhões de sementes de papoula. Amanhã quero encontrar um monte de sementes de papoula e um monte de estrume, completamente separados um do outro. Compreendeu?
— Meu Deus, como vou fazer isso? — exclamou Vasalisa, quase desmaiando.
— Não se preocupe, eu me encarrego — sussurrou a boneca, quando a menina enfiou a mão no bolso.

Naquela noite. Baba Yaga adormeceu roncando, e Vasalisa tentou... catar... as... sementes de papoula... do... meio... do... estrume.
— Durma agora — disse-lhe a boneca, depois de algum tempo. — Tudo vai dar certo.
Mais uma vez, a boneca executou todas as tarefas e, quando a velha voltou, tudo estava pronto.
— Ora, ora! Que sorte a sua de conseguir acabar tudo! — disse Baba Yaga, falando sarcástica pelo nariz. Ela chamou seus fiéis criados para prensar o óleo das sementes, e novamente três pares de mãos apareceram e cumpriram a tarefa. Enquanto a Yaga estava besuntando os lábios na gordura;
do cozido, Vasalisa ficou parada por perto.
— E aí, o que é que você está olhando? — perguntou Baba Yaga, de mau humor.
— Posso lhe fazer umas perguntas, vovó? — perguntou Vasalisa.
— Pergunte — ordenou a Yaga —, mas lembre-se, saber demais envelhece as pessoas antes do tempo.
Vasalisa perguntou quem era o homem de branco no cavalo branco.
— Ah — respondeu a Yaga, com carinho. — Esse primeiro é o meu Dia.
— E o homem de vermelho no cavalo vermelho?
— Ah, esse é o meu Sol Nascente.
— E o homem de negro no cavalo negro?
— Ah, sim, esse é o terceiro e ele é a minha Noite.
— Entendi — disse Vasalisa.
— Vamos, vamos, minha criança. Não quer me fazer mais perguntas? — sugeriu a Yaga, manhosa.
Vasalisa estava a ponto de perguntar sobre os pares de mãos que apareciam e desapareciam, mas a boneca começou a saltar dentro do bolso e, em vez disso, Vasalisa respondeu.
— Não, vovó. Como a senhora mesma diz, saber demais pode envelhecer a pessoa antes da hora.
— É — disse a Yaga, inclinando a cabeça como um passarinho —, você é muito ajuizada para a sua idade, menina. Como conseguiu isso?
— Foi a bênção da minha mãe — disse Vasalisa, com um sorriso.
— Bênção?! — guinchou Baba Yaga. — Bênção?! Não precisamos de bênção nenhuma aqui nesta casa. É melhor você procurar seu caminho, filha. — E foi empurrando Vasalisa para o lado de fora. — Vou lhe dizer uma coisa, menina. Olhe aqui! — Baba Yaga tirou uma caveira de olhos candentes da cerca e a enfiou numa vara. — Pronto! Leve esta caveira na vara até sua casa. Isso! Esse é o seu fogo. Não diga mais uma palavra sequer. Só vá embora.

Vasalisa ia agradecer à Yaga, mas a bonequinha no fundo do bolso começou a saltar para cima e para baixo, e Vasalisa percebeu que devia só apanhar o fogo e ir embora. Ela voltou correndo para casa, seguindo as curvas e voltas da estrada com a boneca lhe indicando o caminho. Era noite, e Vasalisa atravessou a floresta com a caveira numa vara, com o brilho do fogo saindo pelos buracos dos ouvidos, dos olhos, do nariz e da boca. De repente, ela sentiu medo dessa luz espectral e pensou em jogála fora, mas a caveira falou com ela, insistindo para que se acalmasse e prosseguisse
para a casa da madrasta e das filhas.



Quando Vasalisa ia se aproximando da casa, a madrasta e suas filhas olharam pela janela e viram uma luz estranha que vinha dançando pela mata. Cada vez chegava mais perto. Elas não podiam imaginar o que aquilo seria. Já haviam concluído que a longa ausência de Vasalisa indicava que ela a essa altura estava morta, que seus ossos haviam sido carregados por animais, e que bom que ela havia
desaparecido!

Vasalisa chegava cada vez mais perto de casa. E, quando a madrasta e suas filhas viram que era ela, correram na sua direção dizendo que estavam sem fogo desde que ela havia saído e que, por mais que tentassem acender um, ele sempre se extinguia.

Vasalisa entrou na casa, sentindo-se vitoriosa por ter sobrevivido à sua perigosa jornada e por ter trazido o fogo para casa. No entanto, a caveira na vara ficou observando cada movimento da madrasta e das duas filhas, queimando-as por dentro. Antes de amanhecer, ela havia reduzido a cinzas aquele trio perverso.

Do livro Mulheres que correm com os lobos.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Barba Azul, nossa autossabotagem

A tocaia do intruso: O princípio da iniciação




Eita... Agora vamos para um capítulo e tanto... Esse é um capítulo que fala do conto do Barba Azul, leiam o conto, gente... Ajuda: Segue o link: Conto Barba Azul

O título do capítulo é: “A tocaia do intruso: o princípio da iniciação”, vamos dividir esse título ao meio e destrinchar o que a dra Clarissa interpretou do conto! 

A primeira parte do título fala sobre a tocaia do intruso e o que é isso? Tocaia é o mesmo que armadilha, engano, carapuça... intruso é tudo o que não é bem vindo. Isso se refere ao Barbazul, que a Clarissa chamou de O PREDADOR NATURAL DA PSIQUE. 
Agora imagine o que é um predador: é aquele que come os mais fracos, ele devora a carne dos mais inferiores na cadeia alimentar. Natural porquē ele é inato. Ele nasce com a gente e da psique, porquê ele está presente dentro da nossa mente! 

Então o Barbazul é esse predador que está dentro da nossa mente e ele se alimenta da nossa fraqueza, desesperança, desassossego e frustrações. Como é que a mulher que deseja desenvolver o seu lado selvagem deve reagir para vencer esse predador? Para contê-lo e impedir que ele a destrua? Ficando de posse dos seus poderes instintivos: insigth, intuição, percepção, tenacidade no amor, cura intuitiva, cuidado com o próprio fogo criativo, visão e audição apuradas. 


Com quem é que o Barbazul se casa? Com as irmãs mais velhas que já tem os seus sistemas de alerme todos ligados ou com a mais nova, que ainda é bem ingênua? Com a mais nova! Ela é presa fácil! Ela apesar de ter percebido que tinha algo estranho, não respeitou sua percepção. Ao invés disso ela pensou: até que a barba dele não é tão azul assim... e assim enganou a si própria. 



E como é essa armadilha, essa tocaia que o Barbazul criou? Ele oferece tudo para a esposa, exceto a chave do CONHECIMENTO. Aquela que vai permitir que a mulher saiba onde está pisando e tenha conhecimento de todos os fatos, e ai no livro a Clarissa fala assim:

“E quando o Barba-azul sai em viagem, a jovem não percebe que, embora ele a exorte a fazer tudo o que desejar — com exceção daquela única proibição —, ela está vivendo menos, não mais. ”

E é essa a prisão, muitas vezes, guiadas pelos desejos do ego, a mulher escolhe armadilhas.


Pois bem, a gente já falou da primeira parte do título: A TOCAIA DO INTRUSO. Agora vamos falar da segunda parte: O PRINCÍPIO DA INICIAÇÃO. 

O que é iniciação? É passar de um estado de conhecimento ou comportamento para outro estado. E esse processo de iniciação é necessário para a nossa individuação. A individuação é a busca da nossa totalidade e plenitude. 

E no conto a figura do quarto escuro, com cadáveres e sangue, representa o processo iniciático da mulher. Ela vai passar do estado de ingenuidade para o de conhecimento! E ai inicia o seu processo de individuação. 




Então a Clarissa fala que a mulher "não deve ter medo de investigar o pior. Isso só lhe garante um aumento no poder da sua alma.  Mas deve ir com cuidado para não ficar presa." 

E como podemos fazer isso, segue as instruções:



"Enfraquecemos os ataques do predador natural levando a sério o que for verdade no que ele disser, trabalhando com essas verdades e ignorando o resto."

Ficamos mais fortes e impetuosas se usarmos o que for útil desse predador e descartar o resto, exemplo:

RAIVA: utilizar para fazer algo importante para o mundo;

ASTUCIA: investigar e compreender as coisas de forma distanciada;

INSTINTO ASSASSINO: para matar aquilo que não é bom dentro da gente; 




"A cura, tanto para a mulher ingênua quanto para a que teve os instintos fragilizados, é a mesma: tente prestar atenção à sua intuição, à sua voz interior; faça perguntas; seja curiosa; veja o que estiver vendo; ouça o que estiver ouvindo; e então aja com base no que sabe ser verdade."




Boa leitura!!

Links de acesso para outros artigos sobre o livro Mulheres que correm com os Lobos:
introdução
capítulo 1

sábado, 19 de agosto de 2017

Conto Barba Azul

Barba-Azul



Existe uma mecha de barba que fica guardada no convento das freiras brancas nas montanhas distantes. Como chegou até o convento, ninguém sabe. Uns dizem que foram as freiras que enterraram o que sobrou do seu corpo, já que ninguém mais se dispunha a nele tocar. Desconhece-se o motivo pelo qual as freiras iriam guardar uma relíquia dessa natureza, mas é verdade. Uma amiga de uma amiga minha viu com seus próprios olhos. Ela diz que a barba é azul, da cor do índigo para ser exata. É tão azul quanto o gelo escuro no lago, tão azul quanto a sombra de um buraco à noite.
Essa barba pertenceu um dia a alguém de quem se dizia ser um mágico fracassado, um homem gigantesco com uma queda pelas mulheres, um homem conhecido pelo nome de Barba-azul.

Dizia-se que ele cortejava três irmãs ao mesmo tempo. As moças tinham, porém, pavor de sua barba com aquele estranho reflexo azul e, por isso, se escondiam quando ele chamava. Num esforço para convencê-las da sua cordialidade, ele as convidou para um passeio na floresta. Chegou conduzindo cavalos enfeitados com sinos e fitas cor-de-carmim. Acomodou as irmãs e a mãe nos cavalos, e partiram a meio-galope floresta adentro. Lá passaram um dia maravilhoso cavalgando, e seus
cães corriam a seu lado e à sua frente. Mais tarde, pararam debaixo de uma árvore gigantesca, e o Barba-azul as regalou com histórias e lhes serviu guloseimas. “Bem, talvez esse Barba-azul não seja um homem tão mau assim”, começaram a pensar as irmãs. Voltaram para casa tagarelando sobre como o dia havia sido interessante e como haviam se divertido. Mesmo assim, as suspeitas e temores das duas irmãs mais velhas voltaram, e elas juraram que não veriam o Barba-azul de novo. A irmã mais nova, no entanto, achou que, se um homem podia ser tão encantador, talvez ele não fosse tão mau. Quanto mais ela falava consigo mesma, menos assustador ele lhe
parecia, e sua barba também parecia ser menos azul.

Portanto, quando o Barba-azul pediu sua mão em casamento, ela aceitou. Ela havia refletido muito sobre a sua proposta e concluído que ia se casar com um homem muito distinto. Foi assim que se casaram e, em seguida, partiram para seu castelo no bosque.
— Vou precisar viajar por algum tempo — disse ele um dia à mulher. —
Convide sua família para vir aqui se quiser. Você pode cavalgar nos bosques, mandar os cozinheiros prepararem um banquete, pode fazer o que quiser, qualquer desejo que seu coração tenha. Para você ver, tome minhas chaves. Pode abrir toda e qualquer porta das despensas, dos cofres, qualquer porta do castelo; mas essa chavinha, a que tem no alto uns arabescos, você não deve usar.


— Está bem, vou fazer o que você pediu. Parece que está tudo certo. Portanto, pode ir, meu querido, não se preocupe e volte logo. — E assim ele partiu, e ela ficou. Suas irmãs vieram visitá-la e elas sentiam, como todo mundo, muita curiosidade a respeito das instruções do dono da casa quanto ao que deveria ser feito enquanto ele estivesse fora. A jovem esposa falou alegremente.
— Ele disse que podemos fazer o que quisermos e entrar em qualquer aposento que desejarmos, com exceção de um. Só que eu não sei qual é esse aposento. Só tenho uma chave e não sei que porta ela abre.
As irmãs resolveram fazer um jogo para ver que chave servia em que porta. O castelo tinha três andares, com cem portas em cada ala, e como havia muitas chaves no chaveiro, elas iam de porta em porta, divertindo-se imensamente ao abrir cada uma delas. Atrás de uma porta, havia uma despensa para mantimentos, atrás de outra, um depósito de dinheiro. Todos os tipos de bens estavam atrás das portas, e tudo parecia maravilhoso o tempo todo. Afinal, depois de verem todas aquelas maravilhas, elas acabaram chegando ao porão e, ao final do corredor, a uma parede fechada. Ficaram intrigadas com a última chave, a que tinha o pequeno arabesco.
— Talvez essa chave não sirva para abrir nada. — Enquanto diziam isso, ouviram um ruído estranho — errrrrrrrr. — Deram uma espiada na esquina do corredor e — que surpresa! — havia uma pequena porta que acabava de se fechar. Quando tentaram abri-la, ela estava trancada.
— Irmã, irmã, traga sua chave — gritou uma delas. — Sem dúvida é essa a porta para aquela chavinha misteriosa. Sem pestanejar, uma das irmãs pôs a chave na fechadura e a girou. O trinco rangeu, a porta abriu-se, mas lá dentro estava tão escuro que nada se via.
— Irmã, irmã, traga uma vela. — Uma vela foi acesa e mantida no alto um pouco para dentro do aposento, e as três mulheres gritaram ao mesmo tempo, porque no quarto havia uma enorme poça de sangue; ossos humanos enegrecidos estavam jogados por toda a parte e crânios estavam empilhados nos cantos como pirâmides de maçãs.



Elas fecharam a porta com violência, arrancaram a chave da fechadura e se apoiaram umas nas outras arquejantes, com o peito arfando. Meu Deus! Meu Deus! A esposa olhou para a chave e viu que ela estava manchada de sangue. Horrorizada, usou a saia para limpá-la, mas o sangue prevaleceu.
— Oh, não! — exclamou. Cada uma das irmãs apanhou a chave minúscula nas mãos e tentou fazer com que voltasse ao que era antes, mas o sangue não saía.
A esposa escondeu a chavinha no bolso e correu para a cozinha. Quando lá chegou, seu vestido branco estava manchado de vermelho do bolso até a bainha pois a chave vertia lentamente lágrimas de sangue vermelho-escuro.
— Rápido, rápido, dê-me um esfregão de crina — ordenou ela à cozinheira.
Esfregou a chave com vigor, mas nada conseguia deter seu sangramento. Da chave minúscula transpirava uma gota após outra de sangue vermelho. Ela levou a chave para fora, tirou cinzas do fogão a lenha, cobriu a chave de cinzas e esfregou mais. Colocou-a no calor do fogo para cauterizá-la. Pôs teia de aranha nela para estancar o fluxo, mas nada conseguia deter as lágrimas de sangue.
— Ai, o que vou fazer? — lamentou-se ela. — Já sei, vou guardar a chave. Vou
colocá-la no guarda-roupa e fechar a porta. Isso é um pesadelo. Tudo vai dar certo. —
E foi o que fez.

O marido chegou de volta exatamente na manhã do dia seguinte e entrou no
castelo já procurando pela esposa.
— E então, como foram as coisas enquanto eu estive fora?
— Tudo correu bem, senhor.
— Como estão minhas despensas? — trovejou o marido.
— Muito bem, senhor.
— E como estão meus depósitos de dinheiro? — rosnou ele.
— Os depósitos de dinheiro também estão bem, senhor.
— Então, tudo está certo, esposa?
— É, tudo está certo.
— Bem — sussurrou ele —, então é melhor devolver minhas chaves.
Com um relancear de olhos, ele percebeu a falta de uma chave.
— Onde está a menorzinha?
— Eu... eu a perdi. É, eu a perdi. Estava passeando a cavalo, o chaveiro caiu e eu devo ter perdido uma chave.
— O que você fez com ela, mulher?
— Não... não me lembro.
— Não minta para mim! Diga-me o que fez com aquela chave!
Ele tocou seu rosto como se fosse lhe fazer um carinho, mas em vez disso a segurou pelos cabelos.
— Sua traidora! — rosnou, jogando-a ao chão. — Você entrou naquele quarto, não entrou?


Ele abriu o guarda-roupa com brutalidade e a pequena chave na prateleira de cima havia sangrado, manchando de vermelho todos os belos vestidos de seda que estavam pendurados.
— Chegou a sua vez, minha querida — berrou ele, arrastando-a pelo corredor e pelo porão adentro até pararem diante da terrível porta. O Barba-azul apenas olhou para a porta com seus olhos enfurecidos, e ela se abriu para ele. Ali jaziam os esqueletos de todas as suas esposas anteriores.
— Vai ser agora!!! — rugiu ele, mas ela se agarrou ao batente da porta sem largar, implorando por clemência.
— Por favor, permita que eu me acalme e me prepare para a morte. Conceda-me quinze minutos antes de me tirar a vida para que eu possa me reconciliar com Deus.
— Está bem — rosnou ele. — Você tem seus quinze minutos, mas prepare-se.

A esposa correu escada acima até seus aposentos e determinou que suas irmãs fossem para as muradas do castelo. Ajoelhou-se para rezar, mas, em vez de rezar, gritou para as irmãs.
— Irmãs, irmãs, vocês estão vendo a chegada dos nossos irmãos?
— Não vemos nada, nada na planície nua. A cada instante ela gritava para as muradas.
— Irmãs, irmãs, estão vendo nossos irmãos chegando?
— Vemos um redemoinho, talvez um redemoinho de areia bem longe.
Enquanto isso, o Barba-azul esbravejava para que sua esposa descesse até o porão para ser decapitada.
— Irmãs, irmãs! Estão vendo nossos irmãos chegando? — gritou ela mais uma vez.
O Barba-azul berrou novamente pela esposa e veio subindo a escada de pedra com passos pesados.
— Estamos, estamos vendo nossos irmãos — exclamaram as irmãs. — Eles estão aqui e acabam de entrar no castelo.

O Barba-azul vinha pelo corredor na direção dos aposentos da esposa.
— Vim apanhá-la — gritou ele. Suas passadas eram pesadas; as pedras no piso se soltavam; a areia da argamassa caía esfarinhada no chão.
No instante em que o Barba-azul entrou nos aposentos com as mãos esticadas para agarrá-la, seus irmãos chegaram galopando pelo corredor do castelo ainda montados, entrando assim no quarto. Ali eles encurralaram o Barba-azul fazendo com que saísse até a balaustrada. E ali mesmo, com suas espadas, avançaram contra ele, golpeando e cortando, fustigando e retalhando, até derrubá-lo ao chão, matando-o afinal e deixando para os abutres o que sobrou dele.

Link para voltar ao artigo sobre este conto:

Um pouco a mais...

Links para acesso a outros artigos sobre esse livro:

Introdução do Livro Mulheres que correm com os lobos

Capítulo 1 do Livro Mulheres que correm com os lobos

Capítulo 1 - Mulheres que correm com os lobos

O uivo: A ressurreição da Mulher Selvagem



O capítulo 1 é um dos mais curtos, eu pude entender dele que você tem que entrar nas histórias pra poder entender melhor e usar em sua vida, o conto é a história dos rabinos, que é bem curtinha,  e eu desejo ser aquele que toca flautas! rsrs

Poderia finalizar o artigo aqui... Mas não foi só isso que ela nos disse! Com a ajuda dos podcasts Talvez seja isso de Mariana e Bárbara (procurem no Youtube ou no próprio aplicativo de podcasts) deu pra aprender bem mais coisas desse capítulo, que fala sobre a ressureição da mulher Lobo!

"Osso a osso, fio a fio de cabelo, a Mulher Selvagem vem voltando. Através de sonhos noturnos, de acontecimentos mal compreendidos e parcialmente esquecidos, a Mulher Selvagem vem chegando. Ela volta através das histórias."

Nesse momento, descobri que o conto central do livro é "La Loba" e não os "Os quatro rabinos", sério, passei pelo conto e não percebi ser uma história a mais! Por isso acho legal ter que escrever aqui no blog, ao tentar fazer uma síntese, eu acabo entendendo mais... rsrs

Coloco aqui o link pro conto La Loba , recomendo muito que leiam o conto antes de continuarem...




As partes que foram me comovendo do capítulo foram:

"Todos nós começamos como um feixe de ossos perdido em algum ponto num deserto, um esqueleto desmantelado que jaz debaixo da areia. É nossa responsabilidade recuperar suas partes. Trata-se de um processo laborioso que é mais bem executado quando as sombras estão exatamente numa certa posição, porque exige muita atenção. La Loba indica o que devemos procurar — a indestrutível força da vida, os ossos."

Cantar significa usar a voz da alma.

La Loba preserva a tradição feminina.

La Loba, a velha, Aquela Que Sabe, está dentro de nós.

"Embora esse local transmita imensa riqueza psíquica, ele não deve ser abordado sem antes alguma preparação, pois é grande a tentação de nos afundarmos alegremente no prazer de nossa estada ali. A realidade consensual pode, em comparação, parecer menos interessante. Nesse sentido, essas camadas mais profundas da psique podem se transformar numa armadilha de êxtase, da qual as pessoas voltam sem equilíbrio, com ideias duvidosas e pressentimentos impalpáveis. Não é assim que deve ser. A pessoa que volta deve estar completamente purificada ou ter sido mergulhada numa água revitalizante e inspiradora, algo que deixe na nossa pele o perfume do que é sagrado."

"Cada mulher tem acesso potencial ao Rio Abajo Rio, esse rio por baixo do rio.Ela chega até ele através da meditação profunda, da dança, da arte de escrever, de pintar, de rezar, de cantar, de tamborilar, da imaginação ativa ou de qualquer atividade que exija uma intensa alteração da consciência."

"O cuidado com que se deve penetrar nesse estado psíquico está registrado numa história curta porém eloqüente acerca de quatro rabinos que ansiavam por ver a sagrada Roda de Ezequiel."

Como o conto dos 4 rabinos é bem curtinho irei colocar aqui mesmo...

"Os quatro rabinos
Uma noite quatro rabinos receberam a visita de um anjo que os acordou e os levou para a Sétima Abóbada do Sétimo Céu. Ali eles contemplaram a sagrada Roda de Ezequiel.
Em algum ponto da descida do Pardes, Paraíso, para a Terra, um rabino, depois de ver tanto esplendor, enlouqueceu e passou a perambular espumando de raiva até o final dos seus dias. O segundo rabino teve uma atitude extremamente cínica. "Ah, eu só sonhei com a Roda de Ezequiel, só isso. Nada aconteceu de verdade!' O terceiro rabino falava incessantemente no que havia visto, demonstrando sua total obsessão. Ele pregava e não parava de falar no projeto da Roda e no que
tudo aquilo significava... e dessa forma ele se perdeu e traiu sua fé. O quarto rabino, que era poeta, pegou um papel e uma flauta, sentou-se junto à janela e começou a compor uma canção atrás da outra elogiando a pomba do anoitecer, sua filha no berço e todas as estrelas do céu. E daí em diante ele passou a viver melhor."

Lá no sítio eu estava lendo e fiz esse esquema aqui abaixo...

Por enquanto, acho que estou meio na fase 3 de obsessão (risos). Esse livro tem me feito um bem danado que tenho falado pra minha irmã, tia, amigas... Enfim, compartilhado. Mas tentaremos ser 4, né?

Enfim, continuando a leitura... Outras partes f*d@s:

  • A história recomenda que a melhor atitude para vivenciar o inconsciente profundo é a do fascínio sem exagero ou retraído, sem excessos de admiração ou de cinismo; com coragem, sim, mas sem imprudência.
  • Essa é a nossa técnica de meditação enquanto mulheres, a evocação de aspectos mortos e desagregados de nós mesmas, a evocação de aspectos mortos e desagregados da própria vida.
  • Nossa tarefa reside em captar a situação temporal de cada um: permitir a morte àquilo que deve morrer, e a vida ao que deve viver.
  • Quando La Loba canta, ela está cantando a partir do saber contido nos ovários, um conhecimento que vem das profundezas do corpo, do fundo da mente, do fundo da alma.
  • Muitas mulheres com quem trabalhei durante todos esses anos começavam sua primeira sessão com alguma variação em torno da seguinte frase: "Bem, não me sinto mal, mas também não me sinto bem." Para mim, essa condição não é um mistério tão grande assim. Sabemos que ela tem como origem uma falta de esterco. A cura? La Loba. Descubram a mulher de dois milhões de anos. Ela é quem cuida do que já morreu e do que está morrendo nas mulheres. Ela é o caminho entre os vivos e os mortos. É ela quem canta os hinos da criação sobre os ossos.
  • Os ossos representam a força indestrutível;
  • Dentro de nós estão os ossos espirituais da Mulher Selvagem. Dentro de nós está o potencial de readquirir nossa carne, como a criatura que um dia fomos.
  • La Loba, é a guardiã da alma. Sem ela, perdemos nossa forma.

Para finalizar o capítulo, Clarissa usa a simbologia do deserto. Ela diz que como a La Loba, nós quase sempre começamos num deserto, temos sensação "de perda de direitos, de alienação, de não estarmos vinculadas nem mesmo a uma moita de cactos." E ela diz que os antigos diziam ser o deserto o lugar de revelação divina, realmente agora lembrando dos relatos da Bíblia foi no deserto que Jesus foi tentado e posto à prova... E a autora relata que muitas de nós vivemos vidas desérticas: "ínfimas na superfície e imensas por baixo". 

Leia com atenção esses 3 parágrafos abaixo:

A psique de uma mulher pode ter chegado ao deserto em virtude da ressonância, devido a crueldades passadas ou por não lhe ter sido permitida uma vida mais ampla a céu aberto. Por isso, muitas vezes uma mulher tem a sensação de estar vivendo num local vazio, onde talvez haja apenas um cacto com uma flor de um vermelho vivo, e em todas as direções 500 quilômetros de nada. No entanto, para aquela que se dispuser a andar 501 quilômetros, existe mais alguma coisa. Uma casa pequena e admirável. Uma velha. Ela está à sua espera.



Algumas mulheres não querem estar no deserto psíquico. Elas detestam a fragilidade, a escassez. Não param de tentar fazer com que um calhambeque enferrujado funcione para que possam descer aos solavancos pela estrada na direção de uma refulgente cidade que fantasiam na psique. Decepcionam-se, porém, pois a
exuberância e a vida selvagem não se encontram ali. Elas estão no mundo do espírito, no mundo entre os mundos, Rio Abajo Rio, no rio por baixo do rio.



Não seja tola. Volte, pare debaixo daquela única flor vermelha e siga em frente percorrendo aquele último e árduo quilômetro. Aproxime-se e bata à porta castigada pelas intempéries. Suba até a caverna. Atravesse engatinhando a janela de um sonho. Peneire o deserto e veja o que encontra. Essa é a única tarefa que temos de cumprir.

Boa leitura!

Para acessar os outros conteúdos do Livro, segue os links:



Conto La Loba

La Loba

Existe uma velha que vive num lugar oculto de que todos sabem, mas que poucos já viram. Como nos contos de fadas da Europa oriental, ela parece esperar que cheguem até ali pessoas que se perderam, que estão vagueando ou à procura de algo.




Ela é circunspecta, quase sempre cabeluda e invariavelmente gorda, e demonstra especialmente querer evitar a maioria das pessoas. Ela sabe crocitar e cacarejar, apresentando geralmente mais sons animais do que humanos.
Dizem que ela vive entre os declives de granito decomposto no território dos índios tarahumara. Dizem que está enterrada na periferia de Phoenix perto de um poço. Dizem que foi vista viajando para o sul, para o Monte Alban num carro incendiado com a janela traseira arrancada. Dizem que fica parada na estrada perto de El Paso, que pega carona aleatoriamente com caminhoneiros até Morelia, México, ou que foi vista indo para a feira acima de Oaxaca, com galhos de lenha de estranhos
formatos nas costas. Ela é conhecida por muitos nomes: La Huesera, a Mulher dos Ossos; La Trapera, a Trapeira; e La Loba, a Mulher-lobo.

O único trabalho de La Loba é o de recolher ossos. Sabe-se que ela recolhe e conserva especialmente o que corre o risco de se perder para o mundo. Sua caverna é cheia dos ossos de todos os tipos de criaturas do deserto: o veado, a cascavel, o corvo.
Dizem, porém, que sua especialidade reside nos lobos. Ela se arrasta sorrateira e esquadrinha as montañas e os arroyos, leitos secos de rios, à procura de ossos de lobos e, quando consegue reunir um esqueleto inteiro, quando o último osso está no lugar e a bela escultura branca da criatura está disposta à sua frente, ela senta junto ao fogo e pensa na canção que irá cantar.

Quando se decide, ela se levanta e aproxima-se da criatura, ergue seus braços sobre o esqueleto e começa a cantar. É aí que os ossos das costelas e das pernas do lobo começam a se forrar de carne, e que a criatura começa a se cobrir de pêlos. La Loba canta um pouco mais, e uma proporção maior da criatura ganha vida. Seu rabo forma uma curva para cima, forte e desgrenhado. La Loba canta mais, e a criatura-lobo começa a respirar.

E La Loba ainda canta, com tanta intensidade que o chão do deserto estremece, e enquanto canta, o lobo abre os olhos, dá um salto e sai correndo pelo desfiladeiro.
Em algum ponto da corrida, quer pela velocidade, por atravessar um rio respingando água, quer pela incidência de um raio de sol ou de luar sobre seu flanco, o lobo de repente é transformado numa mulher que ri e corre livre na direção do horizonte.
Por isso, diz-se que, se você estiver perambulando pelo deserto, por volta do pôr-do-sol, e quem sabe esteja um pouco perdido, cansado, sem dúvida você tem sorte, porque La Loba pode simpatizar com você e lhe ensinar algo — algo da alma.

Para acessar o artigo sobre comentário do capítulo 1 clique aqui


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Introdução - Mulheres que correm com os lobos


Bom dia! Após ler o capítulo 8, voltei e li novamente o capítulo 1 (tinha lido só introdução e capítulo 1), mas só após aprofundar a leitura do 8, entendi mais o que o capítulo 1 tinha a me dizer... O livro passa a ter muitos significados quando fazemos o que a autora pede: que entremos na historia!

Hoje vou falar um pouco sobre o que a introdução me acrescentou e modificou na vida. Comecei a leitura do livro no mês passado, estava em viagem com meu companheiro, comemoração de 2 anos de casamento... ❤️   Eu andava muito 'perdida' nos meus projetos pessoais, sem saber o que fazer e aquelas palavras da introdução, mais especificamente estas que coloco abaixo, parecem que foram escritas para mim:

"Quais os sintomas associados aos sentimentos de um relacionamento interrompido com a força selvagem da psique? Sentir, pensar ou agir segundo qualquer um dos seguintes exemplos representa ter um relacionamento parcialmente prejudicado ou inteiramente perdido com a psique instintiva profunda. Usando-se exclusivamente a linguagem das mulheres, trata-se de sensações de extraordinária aridez, fadiga, fragilidade, depressão, confusão, de estar amordaçada, calada à força, desestimulada. Sentir-se assustada, deficiente ou fraca, sem inspiração, sem ânimo, sem expressão, sem significado, envergonhada, com uma fúria crônica, instável, amarrada, sem criatividade, reprimida, transtornada.

Sentir-se impotente, insegura, hesitante, bloqueada, incapaz de realizações, entregando a própria criatividade para os outros, escolhendo parceiros, empregos ou amizades que lhe esgotam a energia, sofrendo por viver em desacordo com os próprios ciclos, superprotetora de si mesma, inerte, inconstante, vacilante, incapaz de regular a própria marcha ou de fixar limites.

Não conseguir insistir no seu próprio andamento, preocupar-se em demasia com a opinião alheia, afastar-se do seu Deus ou dos seus deuses, isolar-se da sua própria revitalização, deixar-se envolver exageradamente na domesticidade, no intelectualismo, no trabalho ou na inércia, porque é esse o lugar mais seguro para quem perdeu os próprios instintos."

Estava caminhando muito assim... Sério. Sem exageros... Estava fora do que já havia sido um dia, longe, muito longe do que eu esperava para mim. Acredito que muitas mulheres acabam se perdendo no meio do caminho também... 

Li a introdução sozinha e depois reli com uma grande amiga e ela revelou sentir coisas parecidas... Sentiu, segundo ela, "como se organizasse a alma, como se chacoalhasse tudo, dando luz, dando vida..."

Café e leitura: eu e minha amiga lendo a introdução do livro.


Então vamos conhecer um pouco do que tem nessa introdução maravilhosa? 

A começar pelo título:  "Cantando sobre os ossos"

O que dá pra entender com esse título? O que você entende sobre esse título? Responde antes de continuar... Vamos ver se será a mesma ideia no final. 

No podcast Talvez seja isso, Bárbara Nickel e Mariana Bandarra relatam que no início o livro não parecia ter muito a ver com elas, foi assim comigo também... Há uns 4 anos uma psicóloga indicou a leitura, eu baixei o livro, mas começando a ler: "a fauna silvestre e a Mulher Selvagem são espécies em risco de extinção...", lendo o título e etc... Achei que não tinha NADA A VER COMIGO!! Bom, mas essa é a primeira frase do livro e, agora entendendo o que é a Mulher Selvagem, posso afirmar que realmente elas estão em extinção. 

Selecionei algumas partes que gostei mais da introdução: 

  • As terras espirituais da Mulher Selvagem, durante o curso da história, foram saqueadas ou queimadas, com seus refúgios destruídos e seus ciclos naturais transformados à força em ritmos artificiais para agradar os outros.
  • Minha vida e meu trabalho como analista junguiana e cantadora, contadora de histórias, me ensinaram que a vitalidade esvaída das mulheres pode ser restaurada por meio de extensas escavações "psíquico-arqueológicas" nas ruínas do mundo subterrâneo feminino.
  • Ela sofre pressões no sentido de ser tudo para todos.
  • Os lobos saudáveis e as mulheres saudáveis têm certas características psíquicas em comum: percepção aguçada, espírito brincalhão e uma elevada capacidade para a devoção.
  • No entanto, as duas espécies foram perseguidas e acossadas, sendo-lhes falsamente atribuído o fato de serem trapaceiros e vorazes, excessivamente agressivos e de terem menor valor do que seus detratores. 
Clarissa então faz essa comparação entre mulheres e lobos e diz que foi no estudo dos lobos que primeiro se concretizou o conceito do arquétipo da Mulher Selvagem.

A autora fala um pouco de sua própria história e diz que a Mulher Selvagem já aflorava nela algumas vezes, na forma que ela foi criada e nos lugares em que ela morou. Segundo ela: "Tive a sorte de crescer na natureza." Ela fala um pouco também da geração dela, posterior à Segunda Guerra Mundial, época em que as mulheres eram "infantilizadas e tratadas como propriedade". Aí ela diz que passou a vida como uma "criatura disfarçada", usando chapéus, saltos, etc. 

"As questões da alma feminina não podem ser tratadas tentando-se esculpi-la de uma forma mais adequada a uma cultura inconsciente, nem é possível dobrá-la até que tenha um formato intelectual mais aceitável para aqueles que alegam ser os únicos detentores do consciente. Não. Foi isso o que já provocou a transformação de milhões de mulheres, que começaram como forças poderosas e naturais, em párias na sua própria cultura. Na verdade, a meta deve ser a recuperação e o resgate da bela forma psíquica natural da mulher."




Qual a substância que somos feitas?
Onde fica o nosso verdadeiro lar? 

"E, quando farejamos seu rastro, (da Mulher Selvagem) é natural que corramos muito para alcançá-la, que nos livremos da mesa de trabalho, dos relacionamentos, que esvaziemos nossa mente, viremos uma nova página, insistamos numa ruptura, desobedeçamos as regras, paremos o mundo, porque não vamos mais prosseguir sem ela."
  • Agora, seu cansaço do final do dia tem como origem o trabalho e esforços satisfatórios, não o fato de viverem enclausuradas num relacionamento, num emprego ou num estado de espírito pequenos demais. Elas sabem institivamente quando as coisas devem morrer e quando devem viver, elas sabem como ir embora e como ficar.
  • A Mulher Selvagem é a saúde para todas as mulheres. Sem ela, a psicologia feminina não faz sentido. Essa mulher não-domesticada é o protótipo de mulher... não importa a cultura, a época, a política, ela é sempre a mesma. Seus ciclos mudam, suas representações simbólicas mudam, mas na sua essência ela não muda. Ela é o que é; e é um ser inteiro. 
  • Ela abre canais através das mulheres. Se elas estiverem reprimidas, ela luta para erguê-las. Por mais que seja humilhada, ela sempre volta à posição natural. Por mais que seja proibida, silenciada, podada, enfraquecida, rotulada de perigosa, louca e de outros depreciativos, ela volta à superfície nas mulheres, de tal forma que mesmo a mulher mais tranquila, mais contida, guarda um canto secreto para a Mulher Selvagem.
  • No caso do arquétipo da Mulher Selvagem, para vislumbrá-la, captá-la e utilizar o que ela oferece, precisamos nos interessar mais pelos pensamentos, sentimentos e esforços que fortalecem as mulheres e computar corretamente os fatores íntimos e culturais que as debilitam.


Pra você, o que fortalece a Mulher Selvagem? E o que enfraquece?




Essas foram as minhas anotações, quais foram as suas? 

"Uma mulher saudável assemelha-se muito a um lobo; robusta, plena, com grande força vital, que dá a vida, que tem consciência do seu território, engenhosa, leal, que gosta de perambular. Entretanto, a separação da natureza selvagem faz com que a personalidade da mulher se torne mesquinha, parca, fantasmagórica, espectral. Não fomos feitas para ser franzinas, de cabelos frágeis, incapazes de saltar, de perseguir, de parir, de criar uma vida."

Sugiro que volte lá pro início desse artigo e releia os três parágrafos em destaque que falam de quando a mulher se separa da sua natureza selvagem. Aquele que inicia assim: "Quais os sintomas associados aos sentimentos de um relacionamento interrompido com a força selvagem da psique?"

"A Mulher Selvagem carrega consigo os elementos para a cura; traz tudo o que a mulher precisa ser e saber. Ela dispõe do remédio para todos os males. Ela carrega histórias e sonhos, palavras e canções, signos e símbolos. Ela é tanto o veículo quanto o destino." 

A autora nesses 2 seguintes parágrafos nos dá uma ideia de como o livro é escrito e de como deve ser encarado:
  1. Portanto, seguem-se histórias que elucidam o relacionamento com a Mulher Selvagem. As histórias e mitos transcritos nesta obra são transcrições literais das minhas conferências e apresentações. Os contos são apresentados em detalhes fiéis e em sua integridade arquetípica. Estão também incluídas algumas das perguntas que peço às mulheres que respondam, após refletirem sobre elas, para propiciar uma convergência consciente com o precioso Self selvagem. (Gente, só agora percebi que tem essas perguntas!!! Vou prestar mais atenção agora... rsrs)
  2. "O material contido neste livro foi selecionado para lhe dar coragem. O trabalho é oferecido como um fortificante para aquelas que estão no meio do caminho, incluindo-se as que lutam em difíceis paisagens interiores bem como as que lutam no mundo e por ele. Precisamos nos esforçar para permitir que nossa alma cresça naturalmente até atingir sua profundidade natural. A natureza selvagem não exige que a mulher tenha uma cor determinada, uma instrução determinada, um estilo de vida ou classe econômica determinados. Na realidade, ela não consegue vicejar na atmosfera imposta do "politicamente correio", ou quando é forçada a se amoldar a velhos paradigmas obsoletos. Ela viceja em visões novas e integridade individual. Ela viceja com sua própria natureza."
"Para encontrar a Mulher Selvagem, é necessário que as Mulheres se voltem para suas vidas instintivas, sua sabedoria mais profunda. Portanto, vamos nos apressar agora e trazer nossas lembranças de volta ao espírito da Mulher Selvagem. Vamos cantar sua carne de volta aos nossos ossos."

E agora? Voltando para o título "cantando sobre os ossos", é a mesma ideia que você teve inicialmente? 
Esse livro tem me ajudado tanto <3 
Caso queira compartilhar também suas experiências, coloca aqui nos comentários. 
Boa leitura! 

Fonte: https://www.bing.com/images/search?view=detailV2&ccid=HkgFxx4h&id=88F290C273D72547B8212C1A8C0063A86A9A3102&thid=OIP.HkgFxx4hqStvwnA4I_paAAEsDF&q=mulher+selvagem&simid=608001185612434801&selectedIndex=0&ajaxhist=0









quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Capítulo 8 - Parte 3 - Mulheres que correm com os lobos

Continuando a sequência sobre o capítulo 8 do Livro "Mulheres que correm com os lobos" de Clarissa Pinkola Estés, nesse artigo iremos nos debruçar sobre as armadilhas de 6 a 8.

Sugiro que leia os artigos anteriores: Parte 1 e Parte 2 ;
Bem como o conto Sapatinhos Vermelhos discutido durante todo o capítulo.

Ainda estou na leitura do livro, li apenas a introdução e o capítulo 1, pulei para o 8 para poder participar do Círculo de Mulheres Flor do Ventre. Cuja foto abaixo representa o encontro:


Então vamos ao que interessa, continuando...

Armadilha 6: O recuo diante do coletivo, a rebelião na sombra
Essa armadilha é quando o coletivo nos pressiona... A autora afirma que: "ocasionalmente, o coletivo pressiona a mulher para ser uma santa, ser uma pessoa esclarecida, ser politicamente correta, ser controlada, para que cada uma das suas iniciativas resulte numa obra-prima."

"A ideia é forçar a vítima a se ajustar, e se isso não acontecer, destruí-la espiritualmente e/ou expulsá-la da aldeia para que definhe e morra nos ermos."

A história dos sapatinhos vermelhos ensina, na sua essência, que a psique selvagem precisa ser devidamente protegida - através de uma inequívoca valorização de nós mesmas e uma recusa a se submeter a situações psíquicas pouco saudáveis. 

"O lado selvagem precisa sempre de um guarda junto ao portão, ou poderá ser usado para fins impróprios."

"Quando o coletivo é hostil à vida natural da mulher, em vez de aceitar os rótulos desrespeitados ou pejorativos que lhe são aplicados, ela pode e deve, como o patinho feio, resistir, aguentar e procurar aquilo a que ela pertence - e preferivelmente sobreviver a quem a rejeitou, vicejando e criando mais do que eles."

Armadilha 7: A simulação, a tentativa de ser boa, a trivialização do anormal

Aqui nessa armadilha a autora cita o fato da menina ficar olhando os sapatos que estão no alto da prateleira sem pegá-los... Tipo, como se tentasse "ser boazinha".

"O problema com a decisão de "ser boazinha" está em que essa atitude não resolve a questão sombria subjacente, e mais uma vez ela se erguerá como um tsunami, como uma onda gigantesca, que desce veloz, destruindo tudo o que estiver à frente. Ao "ser boazinha", a mulher fecha os olhos a tudo que for empedernido, deformado ou maléfico à sua volta e simplesmente tenta "conviver" com esses aspectos. Seus esforços no sentido de aceitar esse estado anormal prejudicam ainda mais seus instintos selvagens para reagir, mostrar, mudar, combater o que não está certo, o que não é justo."

"À medida que o instinto se restaura, a Mulher Selvagem retorna. Em vez de entrar dançando na floresta usando os sapatos vermelhos até que toda a sua vida passe a ficar torturada e desprovida de significado, podemos voltar à vida feita à mão, à vida plenamente atenta, podemos refazer os nossos próprios sapatos, caminhar o nosso caminho, falar a nossa própria fala."


Armadilha 8: A dança descontrolada, a obsessão e a dependência

A velha senhora, deveria ser a guardiã da psique, mas ela está tão cega que não consegue ver os sapatos. É incapaz também de perceber o encantamento da menina ou o caráter do homem de barba ruiva. 

"A menina começa então a desperdiçar sua vida num redemoinho que, como qualquer tipo de dependência, não gera a abundância, esperança ou felicidade mas, sim, trauma, medo e esgotamento. Para ela não há descanso."

Mas há esperanças...

"A mulher braba está em processo de cura. (...) A mulher que está voltando precisa ter tempo para se fortalecer."

O retorno à vida feita à mão, a cura dos instintos feridos



Nessa parte do livro que inicia com essa frase que destaquei acima, a autora nos remete que precisamos ter um período do resgate (eu denominei assim, por sinto como se fosse assim...).
Partes que gostaria de destacar:
  • O projeto psicológico para voltar ao nosso self de direito é o seguinte: tenha
    extrema prudência e cuidado no sentido de se soltar aos poucos na selva, instalando
    uma estrutura ética ou de proteção com a qual você tenha acesso a meios para medir
    se há um excesso de alguma coisa. (Geralmente você já é bastante sensível para
    detectar quando há falta de alguma coisa.)
  • Ousadia + ponderação 
  • A recuperação do instinto perdido e a cura do instinto ferido estão realmente ao nosso alcance, pois tudo volta quando a mulher presta mais atenção, ouvindo, olhando e pressentindo o mundo ao seu redor e, depois, agindo como vê os outros agindo, com competência, eficácia e dedicação.

Em psicanálise, gostamos de dizer que, para que alguém possa realmente ajudar/promover curas, é tão importante aprender o que não fazer quanto o que fazer.

  • No entanto, por ter sido separada dos seus instintos, ela é também ingênua, acostumada à violência, adaptável a ficar isolada tanto do pai quanto da mãe.
  • No entanto, uma volta gradativa à vida instintiva tem condição de fazer isso. Para tal, a mulher precisa de uma mãe, uma mãe selvagem "boa o suficiente". 
  • Uma mulher braba não pode se dar o luxo de ser ingênua. Por estar voltando à sua vida inata, ela deve considerar os excessos com um olhar cético e ficar alerta para os custos que eles representam para a alma, a psique e o instinto.
  • É importantíssimo que se cerque de pessoas que deem apoio inequívoco ao seu trabalho.
  • Resumindo o nosso projeto:

"Para manter a nossa alegria, às vezes temos de lutar por ela. Temos de nos fortalecer e ir fundo, combatendo da forma que considerarmos mais astuta. A fim de nos prepararmos para o sítio, podemos ter de abdicar de muitos confortos por algum tempo."

Esse capítulo 8 trouxe muitos ensinamentos. E o finaliza com essa frase de encorajamento e de ação:



Obrigada pela companhia... E boa leitura!


quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Capítulo 8 - parte 2 - Mulheres que correm com os lobos

Esse artigo é sobre o capítulo oito do livro "Mulheres que correm com os lobos" de Clarissa Pinkola Estés, cujo título é: 'A preservação do Self: A identificação de armadilhas, arapucas e iscas envenenadas'.

Coloco aqui o link do conto Sapatinhos Vermelhos bem como da primeira parte do artigo: Parte I

Eu não sou especialista no assunto gente, daí não esperem análises e tal. Eu aqui só apenas compartilho os pontos que os livros me acrescentaram na vida e destaco partes que gostei mais. Dito isto, vamos em frente! :)


Círculo de Mulheres Flor do Ventre - dia 04/08/17


A fotografia acima foi do nosso Círculo de Mulheres que discutiu o capítulo 8 do livro. Eu li apenas a Introdução e o capítulo 1, dei o salto pro 8 para participar do encontro.

Continuando com o capítulo 8, paramos na armadilha 2.

Armadilha 3: a queima do tesouro, hambre del alma, a fome da alma -


Nesse capítulo, a autora começa a falar sobre o que aconteceu com os sapatinhos da menina do conto. Eles foram queimados e reduzidos a cinzas. :/ E ela diz assim: "Os sapatos vermelhos são reduzidos a cinzas quando pintamos, atuamos, escrevemos, agimos e somos de qualquer modo que diminua as nossas vidas, que enfraqueça a nossa visão, que alquebre os ossos do nosso espírito."

Pontos importantes dessa armadilha:
  • "Há algo na fome que nos priva do raciocínio."
  • "Quando uma mulher passou longos períodos sem seus ciclos ou sem suprir suas necessidades criativas, ela começa a se exceder - seja no que for - : álcool, drogas, raiva, espiritualidade, opressão generalizada, promiscuidade, gravidezes, estudo, criação, controle, instrução, organização, forma física, comidas pouco saudáveis, para citar apenas algumas áreas em que os excessos são comuns."
  • "A mulher também pode se sentir despreparada sob outros aspectos, como por exemplo em termos espirituais, econômicos ou da própria formação."
  • "É esse o problema da privação. Se alguma coisa der a impressão de preencher o anseio, a mulher agarrará, sem fazer perguntas."
Se identificou com algum ponto desse? 

Armadilha 4: Danos aos instintos básicos, a consequência do cativeiro
  • "A mulher nasce com todos os instintos intactos."
  • "A recusa a tentar fugir, quando essa atitude é plenamente justificada, causa a depressão."
Quando a menina, segue os comandos da venha senhora, ela perde o poder da decisão, sofre de confusão mental, tédio, depressão simples e ansiedade. 

  • "A mulher cujos instintos estão prejudicados não tem escolha. Ela simplesmente fica impossibilitada de prosseguir."
  • "São inibidos ou exagerados o seu reconhecimento das sensações de saciedade, de sabor estranho, de suspeita, de cautela, e seu impulso no sentido de amar plena e livremente."
A autora cita o exemplo da cantora Janis Joplin, que foi criada dentro de uma comunidade batista de "meninas brancas 'bem-comportadas', do sul dos Estados Unidos". A autora diz que ela, embora fosse uma excelente aluna e pintora talentosa, era repudiada por outras meninas porque não usava maquiagem... E era repudiada pela vizinhança devido ouvir jazz e gostar de escalar uma formação rochosa fora da cidade para ficar cantando com amigos. 



Quando Janis "fugiu pro mundo do blues, era uma pessoa tão carente que não sabia mais dizer quando era a hora de parar. Ela não tinha limites no que dizia respeito a sexo, bebidas e drogas."

  • "No entanto, distraídas, elas escolheram os sapatos amaldiçoados - crenças, atos, ideias que fizeram com que sua vida se deteriorasse cada vez mais."
Armadilha 5: A tentativa de ocultar uma vida secreta, a divisão

Na história a menina está para ser crismada e é levada ao sapateiro para comprar sapatos novos. Em termos arquetípicos a autora diz que é provável que "Os sapatinhos vermelhos" falem sobre o surgimento da menarca e da passagem de uma vida menos protegida pela mãe. 

"Nesse momento na história, ocorre um dos episódios mais reveladores da repressão psíquica. O voraz desejo da criança pela alma destrói as trancas do seu comportamento reprimido. Na sapataria, ela faz passar os estranhos sapatos vermelhos sem que a velha senhora note."

"Essa explosiva "ocultação" psicológica ocorre quando a mulher reprime grande parte do self, empurrando-o para locais sombrios na psique."

"Para escapar desse caminho polarizado, a mulher tem de abandonar a simulação. Esconder uma vida interior falsa nunca funciona."

"As mulheres iludem-se dessa forma. Elas jogaram fora o tesouro, qualquer que ele pudesse ter sido, mas ficam escondendo coisinhas ínfimas sempre que podem. Será que elas escrevem? Escrevem, mas em segredo. E, assim, não têm apoio, nem feedback (...)  Ela tem sonhos vigorosos, mas se limita a continuar lutando em silêncio. É fatal não ter uma confidente, não ter um guia, não ter nem mesmo uma torcida ínfima."

"Quando a mulher se sente obrigada a viver às ocultas, ela está pondo para funcionar um modo de subsistência mínima."

"Esconder o que se faz só é bom para a mulher no cativeiro se ela esconder o que for certo, só se o que ela esconder for exatamente o que a levará à libertação. No fundo, o ato de esconder fragmentos de vida que sejam corajosos, benéficos e que dêem satisfação faz com que a alma fique ainda mais
determinada a erradicar a mentira para ter a liberdade de viver a vida abertamente como bem lhe aprouver."

"A partir dessa perspectiva, é preciso que perguntemos a cada estágio como acabou acontecendo que qualquer mulher específica tenha a sensação de precisar ser servil, retrair-se, humilhar-se e implorar por uma vida que, para começo de conversa, já lhe pertence."

Continuo depois, com as armadilhas 6 a 8 e a conclusão do capítulo 8. Muita coisa interessante, né? Até logo...

Continua na Parte 3

(Do livro Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estés)